Sobre a Geografia no CACD

A importância de conhecer a realidade e não simplesmente repetir opiniões alheias sobre ela.

Surpreendeu-me descobrir que o Instituto Rio Branco não prepara mais Guias de Estudos para cada edição do CACD, com recomendações de leitura e as melhores respostas para as questões de terceira etapa do concurso anterior. Mesmo os novos Guias de Estudos, preparados pelas novas turmas, ainda não incluem indicações de leitura. Na minha época, talvez tenha consultado o Guia de Estudos dúzias de vezes. Percebi, então, que isso coloca os candidatos em uma situação especialmente espinhosa no que tange à sua preparação para as provas de Geografia.

Sempre houve uma certa estranheza em torno das provas de Geografia no CACD. Pode-se dizer que há três vertentes principais de estudo da matéria para o concurso: análise de seus conceitos básicos, familiarização com a história da disciplina e conhecimento geográfico propriamente dito do Brasil e do mundo.

Análise dos conceitos básicos

Os conceitos básicos da Geografia são realmente muito básicos: espaço, território, região, densidade, cidade média, metrópole, conurbação, região metropolitana, entre outros. Há alguns mais avançados, como lebensraum e heartland, que têm mais nuance e são mais úteis como instrumentos de análise do mundo, funcionando como marcadores do pensamento de seus criadores.

A maioria dos conceitos úteis para a análise do “espaço geográfico” não foi criada por geógrafos.

Os conceitos criados por geógrafos que têm ainda alguma relevância são todos antigos: “região”, por exemplo, universalizou-se completamente, assim como “densidade”, a ponto de perderem a conexão mental com a disciplina. Por trás do conceito de lebensraum há toda uma discussão acerca de sua utilidade pregressa: ainda se aplica? Voltará a se aplicar? Mackinder criou dois conceitos ainda utilizados: heartland e manpower. Enquanto isso, o ‘espaço desigual’ de Milton Santos é usado tão-somente no TPS e para enfeitar respostas da terceira etapa, como quem espalha ornamentos em uma árvore de natal.

Geógrafos não criaram os conceitos de globalização, metrópole, cidade global, cidadania global, país desenvolvido, país em desenvolvimento, país subdesenvolvido, periferia, subúrbio, organização internacional, empresa multinacional, empresa transnacional, paraíso fiscal, ‘cluster’ industrial etc. No entanto, todos esses e muitos outros semelhantes são usados com mais frequência na mídia, tratam de fenômenos mais específicos e mais relevantes e, no geral, são mais importantes para a análise até do próprio conhecimento geográfico.

Ou seja, a maioria dos conceitos úteis para a análise do “espaço geográfico” não foi criada por geógrafos. Quem acompanhar o debate acadêmico na Geografia perceberá que, apesar de ser às vezes interessante, é bem menos intelectualmente estimulante para a compreensão do mundo do que o debate que ocorre fora da disciplina. Paul Krugman disse algo muito semelhante em uma palestra à Associação de Geógrafos Americanos: relatou que, ao ler os resumos de estudos acadêmico da disciplina, achava alguns interessantes, mas duvidava que tivessem alguma utilidade. Boa parte das publicações acadêmicas em Geografia é de estudos de caso sobre cidades específicas, levando a conclusões que não teriam utilidade nem para seus respectivos prefeitos. É um incrível exercício em irrelevância, frequentemente permeado por críticas baseadas em projeções idealistas de um mundo com menos desigualdade social, sem danos ao meio ambiente etc.

História da Geografia

A Geografia é a única matéria do CACD cuja história de pensadores se estuda diretamente, como se sua relevância não dependesse de sua utilidade presente. Simultaneamente, a perspectiva reinante, cuja concordância se cobra dos candidatos em itens da primeira fase, é que eles são todos obsoletos. Por que estudá-los, se esse é o caso?

Faz-se exceção para os principais pensadores da Geopolítica, como Mackinder e Mahan, cujas idéias são ainda mencionadas e discutidas em artigos sobre relações internacionais. Há debates muito interessantes em torno da antiga Geopolítica: ainda descreve o nosso mundo? Talvez com algumas modificações? Terá sido completamente superada? Influencia a política externa de países modernos? Mas todos esses debates ocorrem não na Geografia, mas em Política Internacional, onde deu vazão à clássica oposição entre realistas e idealistas, que ultrapassou em muito os limitado escopo da Geografia.

É uma dinâmica conhecida: todas as áreas mais marcantes da Geografia se lhe foram removidas, caíram aos pedaços na Geologia, na Sociologia, na Antropologia, na História e em tantas outras matérias.

O surgimento do ambientalismo proporciona outra linha na qual se poderiam resgatar os antigos debates da Geografia, principalmente na figura de Alexander von Humboldt, mas também aqui novos desenvolvimentos tendem a se enquadrar mais em Política Internacional.

O geógrafo mais influente de nossa época é o americano Jared Diamond, cuja visão de mundo neo-determinista — embora completamente desprovida de todo racismo — ainda não apareceu no concurso. Diamond construiu um novo, mais sofisticado determinismo geográfico e, com isso, despertou muito interesse no mundo inteiro, mas nem isso foi o bastante para que o CACD abandonasse sua perspectiva completamente negativa em relação aos antigos geógrafos.

Conhecimento geográfico propriamente dito

Quem conhece as obras dos antigos geógrafos melhor do que a caricatura que se faz delas em Geografia Crítica percebe claramente que essa Geografia da terceira etapa está muito mais próxima da Geografia Tradicional do que das escolas do pós-guerra.

Chegamos então ao cerne da questão, à parte da Geografia no CACD que mais faz sentido, que claramente merece ser cobrada de todo candidato a diplomata de qualquer país. Essa é a matéria como a encontramos com mais frequência na terceira etapa do concurso. Na minha opinião, esse aspecto da Geografia no CACD é perfeito, exprime exatamente o que se esperaria de um diplomata: que seu entendimento do mundo e do Brasil seja realista, sofisticado, detalhado, baseado em informações concretas.

As melhores respostas em Geografia da terceira etapa, como se pode ver nos antigos Guias do Candidato, mostram intimidade com dados reais do nosso território e do sistema global, com as dinâmicas que neles se observam, com a complexa interação entre o homem e o planeta. Quem conhece as obras dos antigos geógrafos melhor do que a caricatura que se faz delas em Geografia Crítica percebe claramente que essa Geografia da terceira etapa está muito mais próxima da Geografia Tradicional do que das escolas do pós-guerra, pois encontra seu foco em um desejo sincero de compreender a realidade indutivamente, isto é, partido diretamente dos fatos.

De pouco valem ao diplomata, ou à maioria das pessoas, as equações abstratas da Geografia Quantitativa ou as arcaicas fantasias ideológicas da Geografia Crítica. Interessa ao homem pensante a compreensão precisa do mundo como se apresenta, por ele próprio construída com base em seu discernimento pessoal e em suas considerações das idéias dos principais intelectuais de todos os tempos, sejam eles geógrafos — e a maioria não será — ou não. Mais vale a clareza de pensamento do que o domínio de conceitos que não têm verdadeira utilidade como instrumentos para a compreensão do mundo e a condução de negócios em escala global.

Se você for levado por uma máquina do tempo de volta ao século XX e os líderes do país em que você se encontrar pensarem e falarem como os idealistas da Geografia Crítica, fuja, saia correndo pela primeira fronteira patrulhada por soldados.

Pelo ponto de vista do concurso do Itamaraty, as obras dos antigos geógrafos somente não podem ser leitura obrigatória porque são antigas: o mundo mudou. Mas o seu método permanece de pé: queremos compreender nosso mundo tão bem quanto Vidal de la Blache compreendia o seu. Tinha ele seus preconceitos, que lhe eram invisíveis, mas ilude-se quem não sabe que também nós temos os nossos.

Os escritos da Geografia Crítica, por exemplo, hoje não podem deixar de ser ridículos para quem conheça os dados concretos da extraordinária redução da pobreza que o capitalismo global foi capaz de operar sobre o mundo. Se você for levado por uma máquina do tempo de volta ao século XX e os líderes do país em que você se encontrar pensarem e falarem como os idealistas da Geografia Crítica, fuja, saia correndo pela primeira fronteira patrulhada por soldados. O mesmo não se pode dizer sobre a Geografia Quantitativa, porque é duvidoso que algum dia tenha tido alguma relevância, sequer para justificar um inferno na terra.

Não se lêem os grandes mestres do passado, em matéria nenhuma, para identificar seus preconceitos e chamá-los de deterministas, racistas, nazistas ou coisa que o valha. A diferença entre a Geografia Tradicional e as inventadas após a Segunda Guerra é que aquela, além de ter seus preconceitos, servia também para compilar informações sobre os quatro cantos da terra, o fazia com rigor, com cuidado, e resultava em uma obra útil.

Infelizmente, não é isso que encontramos no mais recente Manual do Candidato de Geografia, publicado em 2013 pelo Instituto Rio Branco e escrito pela professora Bertha Becker, e por isso sua utilidade para os estudos do CACD é muito limitada.

Geografia de ensino médio?

Há décadas, os principais livros para o estudo de Geografia para o CACD são os densos, acadêmicos, intelectualíssimos, importantíssimos e muito citados em Sorbonne tomos eruditos intitulados “seja lá quais forem os melhores livros de Geografia do Brasil e Geografia Mundial para o Ensino Médio”. Como estudá-los? Muito simples: decore o máximo possível e despeje tudo nas questões da terceira etapa. Vários diplomatas dirão que fizeram exatamente isso e passaram no concurso, mas acredito que estão enganados.

Na realidade, fizeram uso dessas informações para enriquecer a sua compreensão de mundo, construída com a ajuda de aulas de Geografia no ensino médio, mas também de leituras de todo tipo, em jornais, revistas, livros, além de conversas, viagens, experiências de vida etc. Não poderia ser diferente porque suas respostas na terceira etapa são redações e não planilhas nem listas de estatísticas e nomes de rodovias. Para escrever uma redação coerente, é preciso exprimir idéias, e essas não se decoram em livros de ensino médio, não no nível exigido no CACD.

Em qual universidade brasileira encontraremos um departamento de Geografia que nos possa ajudar com esse problema e indicar leituras mais avançadas dessa Geografia que vemos no material didático estudado por adolescentes?

A Geografia permanece hoje, como foi durante toda sua história, uma matéria escolar fundamental. Ali, é um apanhado geral de entendimentos e informações sobre o mundo, sintetizados segundo seus próprios arranjos, observado por uma perspectiva mais analítica do que ideológica. Essa Geografia, que se ensina a jovens, militares, diplomatas, empresários e outros, em diferentes níveis de complexidade e de especificidade, permanece válida e não poderia ser abandonada, à pena de criar cidadãos que não compreendem o mundo em que vivem e de impossibilitar toda atuação em nível planetário.

Talvez o candidato se incomode em estudar material de Ensino Médio para o prestigioso concurso do Itamaraty, e estará muito certo em sentir-se assim. Em qual universidade brasileira encontraremos um departamento de Geografia que nos possa ajudar com esse problema e indicar leituras mais avançadas dessa Geografia que vemos no material didático estudado por adolescentes? Que eu saiba, em nenhuma. A Geografia acadêmica brasileira, hoje, não se ocupa dessa tarefa.

Para elevar seu nível de compreensão, o candidato precisará ler material de fora da disciplina. Por exemplo, estudos e relatórios do Ipea, da EPE, do IBGE, do IHGB, do CEBRI e de outras instituições de naturezas diversas. Para Geografia Mundial, poderá consultar o FMI e o Banco Mundial, além de uma infinidade de páginas na Internet, como a newgeography.com. Poderá até pesquisar na Wikipédia, contanto que esteja pronto a procurar as fontes citadas e lê-las diretamente: as partes mais importantes de todo artigo da Wikipédia são as referências e a página de discussão, onde se descobre como os voluntários lidaram com as seções mais polêmicas do texto.

A idéia, claramente, é transcender os livros do Ensino Médio e chegar a um nível mais elevado de compreensão da complexa dinâmica de ocupação humana do planeta em nossa época. Assim como o homem pré-histórico modificou o mundo à sua maneira e foi capaz de fazê-lo por tempo o bastante para encontrar equilíbrio com a natureza, também o homem moderno adapta o mundo e constrói um equilíbrio, se não com a natureza, ao menos com seus próprios planos e capacidades. O homem moderno faz isso em toda a parte e, assim, constrói o seu próprio arranjo do mundo. Compreendê-lo, na minha opinião, é o objetivo da verdadeira Geografia e o que de fato se cobra nas melhores questões da matéria no CACD.

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