Política Externa Brasileira: o Coração do CACD

O que faz um diplomata? Muita coisa. No entanto, em maior ou menor grau, como coadjuvante ou como protagonista principal, todos aqueles que seguem a carreira diplomática contribuem para escrever as próximas linhas da política externa brasileira.

Isto posto, o que deve fazer, com toda a força e resiliência, um postulante à já referida carreira? A resposta é simples: estudar profundamente a história da política externa brasileira. Não obstante o caráter quase tautológico desta constatação, não é da tradição da preparação para o concurso de admissão à carreira diplomática, o CACD, a oferta de cursos que trabalhem especificamente o referido conteúdo. Via de regra, a chamada história da PEB está ali, diluída, pulverizada, sintetizada, às vezes preterida mesmo, nos cursos de História do Brasil e de Política Internacional. Um conjunto de saberes essenciais ao concurso encontra-se, em muitos casos, imprensado entre duas disciplinas, fronteira quando deveria ser core.

E já que estamos falando em core, o coração do cacdista deve bater e se inspirar, na vida e na obra daqueles que passaram pelo Itamaraty. Uma boa preparação não é apenas cerebral, cirúrgica, pragmática, científica; ela precisa ser, para que todos tenham a sua saúde preservada ao longo do processo, gostosa, agradável, afetuosa, empática. Assim, desconheço um caminho melhor para começar a preparação, um início oficioso antes mesmo de um início oficial, do que buscar as biografias dos diplomatas; os causos, os imprints legados por aqueles que passaram pela casa do barão. Todo mundo gosta de uma fofoca e qualquer preparação séria visando o CACD deve ser antecedida de uma boa fofocada, um mergulho nos bastidores da carreira, uma imersão na história oficial e oficiosa da política externa brasileira. Fazendo isso, humanizamos aqueles que fizeram o trabalho que pretendemos vir a fazer um dia; retiramos livros da prateleira e ganhamos aliados para caminhar junto com a gente em meio a uma preparação cada vez mais exigente. Tornando-nos íntimos das personagens que fizeram a nossa história diplomática, geramos uma identificação que nos empodera e que pode ser determinante para atravessar o deserto de aulas e leituras.

A minha sensação, em síntese, é a de que pode ser muito mais estimulante, mesmo reconfortante, lidar com a aridez necessária de aulas e livros difíceis, caminhando bem a par da trajetória, não apenas do barão do Rio Branco, mas de um San Tiago Dantas, um Araújo Castro, um Vasco Leitão da Cunha… A preparação para o CACD vai doer sempre, mas será mais agradável em boa companhia.

Para os que estão iniciando a sua preparação para a carreira, para aqueles que se sentem perdidos em meio ao volume de estudos. Para os que estão estudando a anos e para os que estão bem avançados na montagem dos seus respectivos cadernos, uma dica: menos Boris Fausto e menos Hobsbawm; mais dos seus pares. Outrossim, dêem ao estudo da história de política externa brasileira o lugar de destaque que ele merece na preparação de vocês. É real aquela ideia de que o passado está na nossa cabeça e o futuro está em nossas mãos. Mas o passado é muito amplo e, às vezes, a história pode sufocar a gente. Muito cuidado com o que você vai colocar na sua cabeça. Seja seletivo e bons estudos.

Rômulo Dias é historiador, jornalista e mestre em Geografia e um dos mais renomados e experientes professores que atuam na preparação de candidatos ao CACD das matérias de História do Brasil e História Mundial. Organizou, recentemente, em co-autoria com o diplomata Jonas Marinho e em parceria com o Grupo Ubique, dois cursos na área de História do Brasil: 1) um curso geral, já disponível, em pré-venda, e 2) outro específico sobre a História da Política Exterior do Brasil, a ser lançado antes do CACD de 2020. É, ainda, criador da plataforma ZG+ e do Espaço Zeitgeist, associados ao Grupo Ubique.

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