Mapas mentais e os estudos para o CACD

Como uma única técnica pode ajudá-lo em dois dos três requisitos de sucesso na preparação para tornar-se um diplomata de carreira

 

O candidato aprovado no CACD teve que enfrentar, alguns com mais e outros com menos facilidade, pelo menos três desafios principais: 1) a assimilação de todo o conteúdo do edital que foi cobrado na prova; 2) o desenvolvimento da capacidade de expressão e demonstração do que aprendeu, de forma persuasiva, por meio do texto; e 3) a aplicação da habilidade técnica de realização de prova. 

Planejamento, organização, métodos, técnicas de estudo, conhecimento da pegada da banca, disciplina, prática de redação, resolução de questões são apenas os meios para atingir um fim maior: o desenvolvimento de sua capacidade para lidar com esses três fundamentos.

O poder dos mapas mentais — ou mind maps, como originalmente conhecidos — se manifesta principalmente no primeiro aspecto, a saber, o de assimilação do conteúdo do edital, embora tenham utilidade subsidiária ainda no momento de organização das ideias, fase integrante também do processo de produção textual.

O que são e para que servem

Um mapa mental é um diagrama que organiza, ao redor de um tema central, um conjunto de informações inter-relacionadas. A esses subtópicos, vinculam-se e/ou subordinam-se outros fragmentos de informação de menor nível hierárquico. O objetivo do mapa mental é reproduzir a forma como o conhecimento do assunto se estrutura/organiza em nossa mente e se relaciona com outros temas previamente estudados. Para se eficiente, o diagrama deve ser visualmente criativo, sintético, imprimir um toque pessoal e estruturar-se logicamente. Para isso, o autor deve transpor para a folha seu entendimento próprio do assunto e da relação dos dados entre si, com vistas a facilitar a assimilação. No processo, deve recorrer a elementos gráficos, tais como desenhos, cores, acrônimos/acrósticos e outros recursos mnemotécnicos. O resultado é uma representação visual de como seu cérebro estruturou as sinapses neurais sobre aquele tema. Depois de montado, seu valor principal será o de permitir a revisão de grande quantidade de informação em tempo reduzido. Um mapa decorado será mentalmente resgatado pelo candidato na hora da prova, e suas informações serão usadas na análise dos itens objetivos ou até na composição e organização de seus textos. Preferi o termo decorado porque entendo que todo processo de aprendizagem envolve inexoravelmente um esforço deliberado de memorização.

Tendo sido professor por vários anos antes de minha aprovação, já dominava a técnica de confecção de mapas mentais por já aplicá-los no estudo de idiomas. Fiz uso deles já no primeiro material que li: O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. Continuei empregando a técnica até o último dia de estudos, tanto para a fixação quanto para a revisão e resgate do conteúdo. Ainda guardo, com carinho, num armário, nas lembranças, na memória e no coração, quase todos os mapas que fiz. 

Mind maps na assimilação do conteúdo

Sempre recomendo a todos os candidatos que acompanho o uso dos mapas mentais como principal técnica de estudos, tanto na modalidade de resumo quanto de revisão. 

Vou comentar uma forma não-convencional de aproveitar ao máximo o poder dos mapas: cada mapa não será mero resumo de um tema estudado em um livro, nem de um capítulo de livro, caso ele aborde mais de um tema central. Para produzirem seu potencial máximo, os mapas terão como base os temas e ganharão corpo organicamente ao longo de toda a preparação, com a leitura comparada e complementar de várias fontes de estudo que abordam o tema central do mapa. A vantagem desse método é o que candidato terá, em um só lugar, um material de revisão que organiza, condensa e inter-relaciona toda a informação sobre o tema de que trata. 

À guisa de exemplo, o candidato poderia, ao terminar o capítulo sobre Primeiro Reinado do livro História do Brasil, de Boris Fausto, estruturar um mapa sobre o tema correspondente, no caso, Primeiro Reinado. Estuda-se a versão do mapa até que consiga resgatar mentalmente todo seu conteúdo. Futuramente, essa versão será incrementada com novas informações complementares estudadas em uma outra fonte de estudos, como o livro História Geral do Brasil, de Maria Yedda Linhares. E assim por diante. Após um ano de preparação, o candidato tem um mapa temático sobre o Primeiro Reinado extremamente rico em informações, pois concatena o conjunto do conhecimento sorvido de várias fontes de estudo. 

Nesse contexto, cada atualização do mapa corresponde a uma oportunidade de revisar o material, principalmente se o candidato testa sua capacidade de reconstruir o diagrama em sua mente, sempre que possível. Após várias manipulações do material, é normal que se consiga revisá-lo apenas com um correr d’olhos. Os dados não lembrados devem ser objeto de nova tentativa de fixação, seja pela combinação com outro recurso de memorização (destaque com marca-texto colorido, linha do tempo, mnemotécnica, uso de desenho ou ícone, gráfico, circulando, etc.), seja pela insistência em relembrar as partes e trechos esquecidos. O mapa deve, nesse caso, ser atualizado mais uma vez, de modo a reforçar essas associações mais frágeis. 

Os mapas mentais têm várias aplicações práticas, além daquelas já descritas para o estudo de um tema específico. No estudo de idiomas, podem condensar todas as normas gramaticais referentes a um tópico, por exemplo. Crie um mapa sobre colocação pronominal com três ramos: próclise, ênclise e mesóclise. Ao redor de cada subtópico, escreva as regras e, vinculados a cada regra, um ou mais exemplos. Os casos em que mais de uma opção é possível podem ser dispostos entre dois ramos, talvez com uma sinalização de cor diferenciada. Use a criatividade. Lembre-se: o objetivo é criar um material que vai facilitar a assimilação e a revisão do conteúdo. 

Outro uso extremamente útil no estudo dos idiomas é a criação de mapas de vocabulário temático. Aglutine, ao redor de um verbo comum em inglês, preposições com as quais formam phrasal verbs, assim como exemplos de seu uso. Frases situacionais, de função comunicativa, podem ser agrupadas sob o mesmo rótulo: EXPRESSING OPINION. Ao redor dessa etiqueta, caberiam frases como From what I gather… e I would say that… 

Citações, frases úteis e de impacto, jargão das matérias e conceitos importantes podem ser eficientemente compilados em mapas mentais, bem como estudos sobre o pensamento de um autor. Criei, por exemplo, um mapa sobre Milton Santos, em que condensei as frases e ideias mais representativas de seu pensamento e os principais conceitos que tratou em suas obras (por mais que a leitura nem de longe me agradasse). Ainda no estudo da Geografia, utilizei espaços em branco para enriquecer determinados temas com mapas cartográficos. 

Já pensou em como tratar processos e fatos históricos com a estrutura visual de um mapa mental? Imagine o estudo da Revolução Francesa: um galho pode tratar das CAUSAS, outro dos ETAPAS, outro das CONSEQUÊNCIAS, e assim por diante. Os dados cronológicos devem seguir a disposição horária em torno do conceito central, ou incorporar uma linha do tempo para ilustrar o processo.

O estudo de textos legais (lei seca, textos de tratados e acordos, estatutos de organismos internacionais, capítulos da Constituição Federal) é mais fácil com os mapas: esse tipo de documento já é estruturado de forma temática e lógica. O título de seus capítulos já indica quais seriam os melhores índices para um mapa mental. Foi assim que estudei a Carta da ONU, por exemplo.

As atualidades (ou temas do edital de Política Internacional) são ótimas para serem estudadas e organizadas em mapas temáticos, que vão ganhando corpo ao longo de toda a preparação, com a leitura regular de periódicos. Cada fato recente, desdobramento do tema, novo insight ou análise incorpora-se ao diagrama, enriquecendo-o.

Mapas mentais na primeira fase

A primeira fase requer do candidato apenas a habilidade de identificar, nos itens de questão, informações que já estudaram. Por isso, o estudo específico para a primeira fase tem foco no conhecimento passivo, ou seja, naquele que podemos reconhecer e julgar, sem, necessariamente, sermos obrigados a desenvolver a capacidade de produzir informação sobre o assunto. Parece óbvio, mas essa conceitualização tem implicações metodológicas que não podem ser ignoradas na montagem de um planejamento eficaz. Nessa etapa, os mapas cumprem a função de referência visual para os assuntos cobrados em prova. Ao deparar-se com uma questão sobre tema que estudou com o auxílio de um mapa mental, o candidato vai imediatamente julgar o item com base na imagem mental que construiu do mapa, ou melhor, das informações contidas nele (e suas inter-relações). Reforço que os mapas são a melhor técnica de estudos para dar conta da assimilação do conteúdo, que é apenas um dos pilares de uma preparação de sucesso.

Mapas mentais na segunda fase

Outra aplicação — e uma das mais úteis por contribuir para o fortalecimento do terceiro pilar, a saber, o da capacidade de comunicação e persuasão por meio do texto — que defendo para os mapas mentais é no processo de brainstorming, estruturação e organização de ideias que farão parte de uma redação. Grosso modo, cada rótulo do mapa é uma ideia central, ou tópico frasal, que corresponde, portanto, a um parágrafo do texto. Ao redor de cada conceito, agrupam-se as frases de impacto, conceitos, exemplos, jargão, brocardos, argumentos, enfim, tudo que vêm à mente relacionado àquela ideia. Uma vez montada a estrutura visual da redação, escrever fica fácil: cada ramo será transformado em um parágrafo de texto.

Nas provas de conteúdo da segunda fase, a memória dos mapas têm valor tanto no aspecto substantivo (riqueza de dados) quanto no formal da prova (organização/estruturação das ideias). Se cobrada uma questão sobre Direito Internacional dos Direitos Humanos, por exemplo, o ceacedista se esforçará para resgatar e reproduzir na folha de rascunho as informações relevantes àquela questão que estão contidas nos mapas que confeccionou ao longo de meses (ou anos, na maioria dos casos). Ele será riquíssimo, já que concatena todas informações úteis sobre Direitos Humanos coletadas em várias fontes de estudos, como os textos do professor Cançado Trindade e do embaixador José Augusto Lindgren Alves, ilustres autoridades brasileiras no assunto. Uma vez transcritos os fragmentos de informação que interessam, o candidato seleciona os mais úteis para atender às exigências da questão e se baseia neles para montar a estrutura de sua resposta, bem como sua argumentação, reflexão e análise do assunto tratado na questão.

Erros comuns

O pior erro que o candidato pode cometer é estudar por mapas elaborados por outras pessoas. Como dito, quanto mais o mapa traz elementos visuais que remetem a experiências pessoais de seu autor ou a informações que fazem sentido apenas para ele, tais como desenhos (que parecem bobos aos olhos de outras pessoas), ícones e marcações gráficas (círculos, grifos e destaques com marca-textos), mais valor eles têm.

Outra demonstração de padawanismo é o uso de aplicativos ou sistemas de criação digital de mapas mentais. Assisti a um videocurso sobre mapas mentais de um conhecido guru de concursos em que ele não só dava as aulas com base em exemplos de mapas mentais feitos no computador quanto recomendava o uso deles! A impressão que tive é que ele nunca estudou com mapas mentais ou quis evitar dizer a verdade, porque dá trabalho. As pessoas não querem ouvir que terão que se esforçar para produzir um mapa mental. Preferem o conforto do computador. Mapas digitais são péssimos por três razões principais, sendo apenas a primeira suficiente para descartá-los por completo: 1) eles perdem o elemento humano, que tanto contribui para a assimilação, pois é ele que reveste o estudo de relevância e lhe dá uma dimensão emocional; 2) sua montagem despreza a cinestesia (um sentido importante), já eles não se criam no mundo real; e 3) a disposição de suas ramificações modifica-se quando é atualizado, transfigurando-se em uma outra imagem, o que dificulta o posterior resgate e a visualização mental. A cada nova informação acrescentada, o mapa transforma-se em outra coisa que já não é mais ele mesmo!

Uma última imprecisão conceitual que merece espaço neste texto é a sinédoque de se referir aos mapas mentais como se fossem uma ampla sorte de modelos de esquemas, tabelas, anotações com recursos visuais, desenhos e outros materiais afins. Por mais que essas outras técnicas de estudo tenham muito valor, cada uma em seu contexto, nem tudo que é visual é mapa mental. O mind map é espécie — não gênero — de técnica de estudos e segue necessariamente o formato e as regras de construção descritas no início do texto.

Palavras finais: um salto de fé

Se nunca usou os mapas mentais em seus estudos, sugiro que lhes dê uma oportunidade. Atribuo minha aprovação, em grande parte, ao uso frequente e eficiente que fiz desse recurso, que combinei com outros, sempre que necessário, para melhorar minha capacidade de aprendizagem e dar conta do alto volume de assuntos cobrados nas provas. É verdade que os primeiros mapas dão trabalho e tomam tempo: eles serão provavelmente horríveis e pouco proveitosos em seu objetivo principal de facilitar a retenção do material. Com a prática e apego aos princípios de eficiência descritos nos primeiros parágrafos, tanto a qualidade visual quanto a utilidade dos mapas vai-se elevando, atingindo graus máximos de transferência para o resultado pretendido.

 

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