Itamaraty, reduto de mestres da persuasão

Cortes reais e comissões de promoção.

Chame-se ‘oratória’, como na antiguidade, ‘influência’ ou ‘persuasão’, como na Psicologia moderna, trata-se de habilidade essencial para o êxito em toda tarefa que envolva a cooperação com outras pessoas e, especialmente, na diplomacia.

O conhecimento de persuasão assumiu muitas formas ao longo dos séculos, mas uma de suas formas mais perenes, própria de sistemas monárquicos, foi como corpo de conhecimento próprio a jovens nobres que, enviados à corte real, buscavam mostrar suas habilidades pessoais e conquistar posições como diplomatas, generais, ministros e outros, uma espécie de concurso público e progressão de carreira que dependia diretamente das boas graças do monarca e de outras personalidades influentes da corte. Embora a noção centralizada desse corpo de conhecimentos tenha desaparecido com a modernidade, ele permanece relevante em estruturas hierárquicas no mundo moderno, como grandes corporações, sistemas de governo e ministérios em que haja progressão orgânica de carreira, como é o caso do Itamaraty.

Como resultado dessa simbiose entre persuasão, carreira diplomática e mecanismo de corte, formou-se no Itamaraty uma cultura peculiar, adequada às limitações e oportunidades da política externa brasileira. O Itamaraty tornou-se um reduto de mestres da persuasão, os embaixadores mais influentes do Ministério.

É natural que haja uma conexão direta entre a diplomacia e a persuasão. Como veremos, a persuasão é essencial para as três atividades tradicionais dos diplomatas: informar, negociar e representar.

Informar

Sentados à frente de seus computadores nas missões diplomáticas e repartições consulares espalhadas pelo mundo, os diplomatas brasileiros escrevem centenas de telegramas por dia, destinados ao Ministério das Relações Exteriores em Brasília, os quais também podem ser retransmitidos automaticamente para outros postos no exterior ou para escritórios de representação em algumas capitais de estados brasileiros. Por sua vez, seus colegas lotados em Brasília analisam as informações recebidas, também elaboram centenas de comunicações telegráficas dirigidas aos postos no exterior, preparam documentos e trocam impressões com seus chefes.

Nesse oceano de informação que circula pelo mundo diariamente, é de se esperar que boa parte não receba devida atenção. Como resultado, existe esforço de aprimoramento constante da linguagem diplomática, com vistas a assegurar a melhor compreensão possível para a mensagem transmitida. Nesse permanente aprendizado entre gerações de diplomatas, alguns telegramas, pela qualidade de seu teor, tornam-se verdadeiras referências.”

Negociar

O ‘soft power’ tão caro à diplomacia brasileira é pura persuasão

Os avanços recentes da globalização aumentaram muito a complexidade das relações internacionais. Outros países, como os Estados Unidos, lidam com essa situação fazendo contratos temporários com especialistas em setores específicos, como o comércio internacional. Embora a participação de outras áreas do governo em negociações internacionais tenha aumentado, os diplomatas do Itamaraty são responsáveis pela quase totalidade das tratativas entre o governo brasileiro e outros países.

Também nessa área desenvolveu-se uma experiência institucional tão sofisticada quanto a de qualquer outro país, alguns com muito mais recursos que o nosso. Como resultado, comumente se constata que a participação do Brasil nas relações mundiais é maior do que naturalmente seria. O ‘soft power’ tão caro à diplomacia brasileira é pura persuasão.

Representar

Quem já visitou Brasília deve ter notado as placas indicando a presença de embaixadas em diversas áreas da cidade. De fato, Brasília está entre as cidades que sediam o maior número de postos diplomáticos no mundo, mas toda capital nacional tem alguma presença de diplomatas estrangeiros. Esses agentes estrangeiros atuam em sociedade, encontram-se nos mesmos eventos, frequentam muitos dos mesmos lugares. Os diplomatas brasileiros participam dessa comunidade tanto no Brasil quanto no exterior.

Seja participando de eventos oficiais, cooperando em tarefas ou fazendo amizades com colegas de outros países, carregam em suas interações a responsabilidade de representar o país com uma intensidade maior do que a de um turista ou imigrante brasileiro. Também aqui há lições a aprender, tecidas com base em experiências constantes e variadas.

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