Guia de reprovação para o CACD

Uma indispensável coleção de receitas práticas, escrita por um diplomata, para manter-se com pompa e circunstância na condição de eterno quarto-secretário.

Ser reprovado no concurso dos sonhos é, para muitos, uma experiência das mais gratificantes. Pense nas várias vantagens de nunca deixar de ser um ceacedista: não precisa trabalhar,  é sustentado pela família; tem agenda flexível, acorda ao meio-dia sempre que quer; dispensa compromissos indesejados porque tem que estudar (desculpa preferida); faz os mesmos cursinhos, assiste às mesmas videoaulas por anos a fio ao ponto de ficar amigo dos professores; não tem a rotina de se preocupar em tomar decisões que afetem as vidas das pessoas; não tem que ficar mudando de país (com a família junto) a cada 2–4 anos, etc. Enfim, é um estilo de vida realmente recompensador, sem maiores obrigações e responsabilidades, com exceção, claro, do permanente dever sagrado de todo candidato: tenho que dar conta do material que o cursinho me mandou estudar.

O que os eternos quartos-secretários mais desejam é ficar longe dos métodos mais eficientes de aprovação, os quais, na verdade, são simples. Nessa incessante busca pela mediocridade, eles contam com um forte aliado: o mercado de cursos preparatórios para o CACD. Esses programas são, em geral, idealizados por não diplomatas, ou seja, por gurus/mentores/coaches/orientadores (chame como quiser) que nunca passaram no nosso concurso (ou mesmo em qualquer concurso). Para piorar, eles não têm nada a perder se os conselhos que lhe dão não trazem os resultados esperados ou até atrapalham seu estudo. O desavisado deixa-se envolver pela simpatia e pela boa articulação de alguns orientadores de fora da carreira, confundindo esses atributos com experiência, propriedade e legitimidade.

Esses consultores fazem o que chamamos, em um círculo íntimo, de trombetagem. O trombeteiro é aquele que quer ensinar a transar, mas é virgem; que explica de como fazer um excelente churrasco, mas é vegetariano; que dá conselhos de dieta, mas pesa 130kg; que recomenda tal ou tal investimento para ganhar dinheiro, mas tem nome sujo no SERASA; que xinga o jogador de futebol que erra pênalti, mas nunca chutou uma bola; que quer ser político, mas nunca participou de uma reunião de condomínio; enfim, que nunca fez nada excepcional na vida, mas garante que tem a fórmula do sucesso. No fim das contas, nada mais é que um bullsh*tter!

Ouvir um diplomata — um aprovado, portanto, no concurso — ou um professor de alto calibre, por outro lado, pode prejudicar muito os objetivos de correr no pelotão dos retardatários. A verdade é que a perspectiva de um diplomata sobre os assuntos do concurso será invariavelmente distinta daquela de um outsider: os temas da prova são parte de nossas vidas e de nossos cotidianos profissionais. Nós vivemos e respiramos Política Externa, Direito, Economia, História e Geografia. Direitos Humanos e negociações comerciais são, para os frequentadores diários da Casa do Barão, assuntos concretos, com relevância e sentido práticos. Mesmo aqueles que não trabalham diretamente com determinados assuntos acabam criando com eles alguma intimidade — inalcançável aos de fora —, pois tais questões fazem parte de suas conversas de corredor, encontros informais e de seu horizonte profissional, afinal, estamos sempre de olho nos próximos passos da carreira. E a técnica de redação telegráfica ou a linguagem diplomática, que só os diplomatas dominam? Já se perguntou se o estilo das melhores redações da segunda fase coincide com o das milhares de comunicações (chamadas telegramas) escritas diariamente por diplomatas?

A cada concurso que realiza, o Itamaraty procura desvelar, nas questões de suas provas, o perfil que almeja nos novos integrantes da carreira. A prova reflete o esprit de corps do Ministério, cujo entendimento foge ao alcance de um estranho, por mais bem-intencionado e informado que seja (há exceções, como alguns professores altamente especializados). Por isso, quando um diplomata lhe transmitir os pontos de vista dele sobre qualquer assunto, sejam atinentes a sua atividade profissional, sejam relativos ao concurso, recomendo fortemente que os ignore. Ele só quer seu mal, como um vampiro que quer aumentar seu clã. Não é que ele vá prever o que cai prova e destruir de vez seus planos de viver de mesada. A prova é imprevisível, por mais que lhe digam o contrário! O pior mal que ele pode lhe causar é apresentar-lhe uma perspectiva analítica privilegiada e um refinamento na priorização de determinados aspectos sobre os temas cobrados que só podem emanar de quem pertence à carreira. Tudo isso enriquece o texto da terceira fase muito mais do que você gostaria. Estou certo de que, para ir mal na prova, é muito melhor contratar os serviços de preparação concebidos por não diplomatas, como a maioria dos programas de coaching e mentoria e cursos extensivos em vídeo e presenciais (que chegam a durar mais de mil horas, somadas todas as matérias, e procuram esgotar todos os temas do edital, como se você não tivesse, além de tudo, uma enorme carga de leitura e escrita para cumprir). Mas cuidado: há inimigos infiltrados! De vez em quando, onde menos se espera, você vai esbarrar em alguns professores brilhantes, uma minoria que, apesar de não serem da carreira, podem frustrar seus planos resolutos de fracassar no CACD.

Com isso tudo em mente, vou fingir por um instante que não sou diplomata e propor, a seguir, para seu (e meu) regozijo, uma série de receitas práticas (que evitei até numerar para não passar a falsa impressão de que se esgotam neste texto) para garantir um fiasco arrasador no concurso. Alerto que o texto é longo: para melhor degustação, sugiro a leitura e a reflexão correspondente por partes.

Assista a todas as aulas do cursinho que comprou

Já ouvi dizer que as pessoas de sucesso leem bastante. Deve ser mentira, porque os cursinhos preferem recomendar cursos audiovisuais de longuíssima duração. Não importa se seu curso só de Geografia tem mais de 100 horas. A prioridade de sua vida deve ser assistir a todas as aulas, afinal, você pagou caro por cada minuto. O nível das aulas é irrelevante: os professores normalmente têm em mente o aluno médio, ou seja, baixam muito o nível da aula para que todos consigam acompanhar, o que é ótimo para ter conhecimentos apenas iguais aos da média dos concorrentes. Não faria o menor sentido se aplicasse essas cento e tantas horas no estudo de obras avançadas ou em vídeos de alto nível que tratam de nuances de temas específicos, que têm muito mais a ensinar.

Você acredita que aprenderia mais se aplicasse essas horas estudando oito ou dez livros, complementados por vídeos temáticos, ou se assistisse confortavelmente no sofá a um curso extensivo e generalista, de nível extremamente democrático — e, portanto, básico e superficial —, sobre a matéria?

Antes de responder, lembre-se: passar não é sua prioridade.

Fuja de livros e vídeos de nível avançado

Para ser coerente com o item anterior, prefira obras e aulas fáceis de entender. Por mais que o contato com material de estudo avançado (obras ou vídeos) provoque uma reflexão aprofundada sobre a matéria e permita que você domine o conhecimento com mais propriedade, as obras simples dão a (muitas vezes falta)sensação de que você entendeu o assunto. Para seu objetivo, que não é passar, permanecer na zona de conforto é uma tática mais efetiva do que enfrentar  os desafios do estudo árduo. Já pensou que, em tudo na vida, valorizamos menos o que é fácil ou vem de graça? Pois é: o cérebro também dá mais valor àquilo que teve que se esforçar para conquistar.

Contrate um programa de coaching/mentoria com um guru que não seja diplomata

O melhor conselho que alguém que ganhou muito dinheiro com investimentos pode dar é simplérrimo: mostrar seu portfólio. Na mesma linha de raciocínio, aquele trombeteiro virgem dificilmente será seu melhor conselheiro sexual.

Para assegurar sua reprovação, nada melhor do que seguir à risca as orientações de quem nunca passou no concurso para diplomata (ou mesmo em nenhum outro), em temas que vão desde o planejamento até a escolha dos métodos, das técnicas e dos sistemas de organização dos estudos. Melhor ainda se ele (ou ela) não tiver nada a perder se você não passar, como quase sempre é o caso.

Eles é que são os reais especialistas em reprovação: a maioria esmagadora de seus alunos tombam ou, dito de maneira mais apropriada, pagam para quebrar a cara. Você possivelmente nunca parou para pensar nisso, mas são os repetentes que sustentam o mercado de cursinhos. Os azarados que acabam passando são apenas um efeito colateral, a ser evitado a todo custo. Muito provavelmente, mesmo sem a ajuda dos trombeteiros, a maior parte deles passaria de qualquer jeito.

Ignore as estatísticas: preocupe-se primeiro em passar na primeira fase.

Faz sentido para você ouvir que quem estuda demais não tem tempo de se preparar para o concurso? E se eu lhe contasse que, estatisticamente, o quinto colocado na primeira fase tem quase o dobro de chances de ser aprovado no concurso que o primeiro, você acreditaria? Pois é:

Os candidatos que ficaram em primeiro lugar na etapa inicial foram aprovados em apenas 5 dos 17 certames realizados desde 2003. Em contraste, os quintos lugares passaram em 8 deles!

Você ficou surpreso, não foi? Eu não! Já esperava um resultado semelhante quando encomendei o estudo estatístico, que tentarei aprofundar algum dia, quem sabe…

A aprovação no CACD requer um conjunto de habilidades que são específicas a cada fase do certame. Por isso, a adoção de métodos genéricos, por melhor que possam aparentar, não funciona se não forem adaptados às particularidades do CACD. O domínio do conteúdo, ou seja, a aquisição de conhecimento bruto, é apenas um dos pilares do sucesso. O mais importante, no fim das contas, como explorarei mais na frente, é o desenvolvimento da capacidade analítica ativa e da expressão do conhecimento adquirido por meio do texto, o que se julga apenas nas fases posteriores do concurso.

O que importa o seguinte: para ser primeiro colocado na primeira etapa (ou ficar no topo), é preciso se desenvolver em habilidades muito específicas como julgar itens, captar pegadinhas e principalmente memorizar uma quantidade de informação tão grande que talvez nem contribua tanto para as fases subsequentes. A reprovação futura, como ocorre em quase 70% dos casos, se dá por causas até previsíveis: os candidatos que ficam na elite da primeira fase desviam parte do tempo de estudo dirigido às segunda e terceira fases (de escrita, portanto) para a leitura de mais e mais conteúdo do edital, preocupado em responder todos os itens cobrados na primeira fase. Esquece que alguns (ou muitos) itens foram criados justamente para não serem respondidos! É a história da lebre e da tartaruga: uma se concentra na largada; a outra, na chegada. Por isso, o candidato cunicular, que nem sempre passa, não obstante sua ótima performance na largada, vê o TPS como prioridade absoluta e negligencia a prática frequente da escrita e da resolução de questões discursivas!

Acredite que só passará na prova se tiver acesso aos serviços mais caros

Ora, não é incomum ver cursos preparatórios se gabando de seus índices de aprovação. Existe uma estratégia simples (e válida) para inflar os números positivos: dão-se bolsas de estudo aos aprovados na(s) primeira(s) fase(s) ou àqueles com maiores chances de passar (estamos falando de um conjunto reduzido de candidatos, cuja maioria, muito provavelmente, passaria sem a ajuda de cursinhos). Se você quisesse, de fato, ser aprovado no concurso — o que não é, de modo algum, o caso — escolheria apenas os serviços que valem o que você paga. Não aceitaria contratar um programa personalizado (que é o tipo mais caro, como coaching ou correção de questões/redação) que não previsse garantia de devolução integral em caso de insatisfação. Seria extremamente criterioso na escolha da pessoa (ou curso) a quem entregará o planejamento de seus sonhos. Mas nada disso importa: para você, nada é melhor do que a vida de concurseiro profissional.

Distribua suas horas de estudo entre as matérias de acordo apenas com o peso (ou número de questões) de cada uma no concurso

O candidato fadado ao fracasso estuda sem maiores preocupações com o planejamento dos estudos. Preocupa-se mais com a quantidade do que com a qualidade. Despreza  variáveis importantes no momento de fazer a distribuição das horas de estudo entre as matérias, como o nível de conhecimento que tem em cada matéria, suas facilidades de aprendizagem, o volume de conteúdo por disciplina, sua bagagem prévia, etc. De qualquer modo, basear-se no número de questões por disciplina já é melhor que nada: na ausência de soluções comprovadamente mais eficientes, a mais simples normalmente já é a melhor.

Faça simulados desde o início de sua preparação, mesmo se iniciante

As celebridades da área de concursos mandam fazer questões de prova desde o começo da preparação. Como sou do contra, considero essa prática sensacional se o objetivo é a ruína. Por isso, para falhar, siga indiscriminadamente as dicas dessas figuras e ignore as funções principais dos simulados, quais sejam: 1) revelar temas específicos (do edital) em que o candidato tem lacunas de conhecimento; 2) impregnar no candidato a pegada da banca e 3) avaliar o nível de competitividade às vésperas da prova. Quanto mais propositivo o resultado, mais eficiente. Quando abusamos da realização de questões de provas anteriores desde o início da preparação, desobedecemos ao princípio da especificidade, tão caro aos atletas de elite. Segundo esse princípio, há momentos estratégicos para a aplicação de cada tipo de atividade. Um simulado extenso de diagnóstico, no início de um macrociclo de estudos ou logo após uma reprovação, tem valor inestimável na montagem do novo ciclo de estudos. Por outro lado, dizem por aí que exercícios objetivos (C/E ou de múltipla escolha) têm papel fundamental na fixação do conteúdo. Digo, sem hesitar, que há formas muito mais eficientes de se aprender o assunto. O valor dos exercícios, para essa finalidade, é superestimado. 

Os exercícios objetivos e questões [objetivas] de provas passadas cumprem melhor a função de testar e de treinar do que de sedimentar conhecimento. — Ah, mas comigo é diferente! Aprendo melhor fazendo exercícios! Se essa foi sua reação, não mais discutirei, meu bom Padawan. Não é sua culpa: quem só tem martelo pensa que tudo é prego. Aprender é reunir as ferramentas para resolver um problema específico que se nos será imposto. No seu caso, esse problema é a aprovação no CACD. E se você reuniu as ferramentas erradas? Em resumo: tanto os simulados quanto as questões devem ser aplicados em situações estratégicas. E sim: há momentos em que fazê-los é nada mais que perda de tempo. Péssima dica para nosso quarto-secretário Mun-Ha!

Adie o início do estudo dos idiomas estrangeiros até ter uma base sólida em outras matérias

Já disse em outro texto que tem sido cada vez mais difícil obter a aprovação no concurso, por ter se elevado bastante o nível das respostas na terceira etapa.

O CACD não difere de uma guerra: é a disputa pelo ápice de uma estrutura hierárquica. Em todos os campos da atividade humana, o topo é dominado pelos que se comunicam de forma mais eficiente, o que quer que signifique comunicar naquele contexto específico.

No concurso para diplomata, essa comunicação se estabelece pelo texto. Para a aprovação, não basta saber o assunto: tem que saber tratá-lo na prova da forma mais persuasiva e sedutora possível aos olhos dos examinadores, que são os destinatários de sua mensagem. Passar no CACD é, em grande medida, como em toda disputa intelectual, decorrência de um exercício bem-sucedido de persuasão. Nesse contexto, os idiomas deixam de desempenhar papel coadjuvante na composição da nota final e passam a ser critério crucial de diferenciação. Seguindo sua regra de ouro de enganar-se com facilidades e de evitar dificuldades, o fracassado de carteirinha negligencia o domínio das línguas e acha que priorizar os estudos de História do Brasil, História Geral ou de outras matérias que domina mais facilmente é o caminho que conduz à aprovação. Desconsidera que a aquisição de um vocabulário extenso em todos os idiomas estrangeiros requer muito tempo de exposição a eles (de forma espaçada, de preferência), carga de leitura volumosa e prática ainda maior de redação e tradução. Esquece que a gramática se aprende no próprio exercício de escrita, quando se cotejam os erros cometidos com as normas vigentes, revestindo o conhecimento recém-adquirido de contexto, relevância e significado. Prefira, portanto, perder seu tempo assistindo a entrevistas de trombeteiros dizendo que o nível nos idiomas desejado na prova não precisa ser fluente. A ignorância é uma bênção!

Faça um curso de inglês com um professor que fala inglês na aula!

O candidato incauto prefere aulas de inglês que são dadas naquele idioma, já que se não importa com o fato de que a introdução da modalidade oral da língua, além de não ser objeto do concurso, atua como vetor de distrações, ou seja, desvia-nos do foco da aula, qual seja, a gramática, a ampliação de vocabulário, técnica de leitura ou escrita. Candidato sem foco não passa. Simples assim. Quem quer passar elimina as distrações. Como você acha que a introdução de elementos de confusão poderia afetar a qualidade de seu aprendizado? Se o candidato não é perfeitamente fluente na compreensão auditiva ou há alguma chance de perda de clareza na comunicação pelo uso do inglês na aula, a chance de perder conteúdo — e reprovar, por conseguinte — aumenta. Bom para você, que não quer passar!

Conforme-se quando disserem que você não precisa ser fluente nos idiomas estrangeiros

A fluência é a naturalidade no uso. Ela se aplica tanto à modalidade oral (fala e compreensão auditiva, não cobradas no concurso), quanto à escrita (seja ativa ou passiva, ou seja, redação e leitura/interpretação, respectivamente) do idioma. Antevendo um campo de batalha cheio de combatentes brutais, muitos dos quais alfabetizados e pós-graduados em idiomas estrangeiros, você não vai querer investir na fluência escrita para se preparar melhor para a peleja, não é mesmo? Contente-se em ficar no atoleiro da mediocridade. Não se preocupe com seu inglês insípido, afinal de contas, andam dizendo por aí que os idiomas do CACD não exigem nível tão alto assim. Aprender superficialmente três idiomas estrangeiros em dois anos é facílimo, qualquer um pode, não é?

Siga um calendário fixo de revisões, de preferência calcado na Teoria da Curva do Esquecimento

Segundo os métodos de revisão fundamentados na Teoria da Curva do Esquecimento, o aluno deve cumprir um calendário com periodicidade pré-determinada de sessões de revisão após o estudo inicial dos assuntos. Tais métodos são excelentes para decorar dados desconexos justamente por desconsiderar a dimensão emocional e o contexto da aprendizagem. Ao forçar-se a seguir um calendário fixo, complexo e de difícil elaboração (revisão a cada 24h, 48h, uma semana, um mês, etc.), o cumprimento rigoroso desse cronograma torna-se um fim em si mesmo, sempre em detrimento da produtividade e da qualidade dos estudos. Você se mantém, ademais, cronicamente tomado por aquela deliciosa sensação de estresse por nunca conseguir alcançar as metas programadas. Não avança no edital, não revisa os infindáveis fichamentos previstos para o dia, não consegue produzir os mapas mentais com o esmero que gostaria. Materiais de revisão vão-se acumulando de uma forma praticamente impossível de acompanhar. Para flertar com o insucesso, desconsidere métodos mais simples e intuitivos: já parou para pensar que em diversos assuntos você já pode ter consolidado conhecimento suficiente para ser aprovado sem precisar de revisões laboriosas? Se você se vir, de fato, em tal situação, é porque provavelmente está conseguindo estabelecer correlações entre informações que vão sendo adquiridas ao longo de seus estudos com conhecimentos prévios — numa construção contínua de saber —, exercício que lhes confere relevância prática e os reveste de significado, intimidade e até de uma ligação emocional.

Por que será que ninguém esquece o primeiro beijo? Quantas vezes ele tem que ser repetido para não ser esquecido? E aquela música que não ouvimos há 15 anos mas de que não esquecemos uma sílaba sequer?

Ignore este princípio e o tropeço será garantido!

Prefira sempre avançar no edital a assimilar com propriedade o conteúdo estudado

O quarto-secretário por vocação preocupa-se mais em avançar no edital, sem freios, do que em ler com atenção, refletir e produzir textos que exprimem sua visão e ponderações sobre o que tem estudado. Justifica a pressa, a qual não raro descamba para o desespero ou o nervosismo exacerbado, pelo volume quase infinito de informação que tem para cobrir em tão pouco tempo. Outra abordagem consiste em rodar o edital a fim de apenas se familiarizar com os assuntos, para, depois, num segundo momento, dedicar-se ao estudo mais detalhado. Muitas vezes funciona, afinal, muitos métodos produzem bons resultados quando levados a cabo de forma coerente e inteligente. Mas não é o que você quer. Para prolongar o feliz convívio domiciliar que tem hoje, você precisa dar pouca importância à qualidade do que aprende. O método Feynman é péssimo para você. Ele propugna que, para nos apropriarmos do assunto, devemos desenvolver nossa capacidade de explicar e ensinar o que aprendemos da forma mais simples e pessoal possível. Isso depende, obviamente, de ter entendido bem a matéria. Felizmente, as atividades de esmiuçar o texto, escrever sobre ele e explicar o que estudamos tomam muito tempo, e há todas as aulas do cursinho, que parecem o catálogo inteiro de séries do Netflix, para correr atrás! Portanto, não faça isso se ainda não estiver convencido de que deseja ser diplomata! Continue lendo ao léu, sem foco e com açodamento. Para o concurseiro profissional, o  mais importante é esgotar o quanto antes o edital e as aulas do cursinho, que parecem não ter fim, certo?

Escreva pouco

Ouvimos de vários autores brilhantes que aprender a escrever é aprender a pensar. Felizmente, para você, que não quer passar, escrever rouba tempo de estudo de outras atividades. Como o tempo é seu principal recurso, tem a desculpa perfeita para não escrever. Prefira fazer marcações no texto (com marca-texto ou lápis), mapas mentais e escrever resumos e fichamentos. Essas atividades — por mais que tenham seu valor na aquisição e resgate de conteúdo —, quando empregadas (e abusadas) de forma passiva, mecânica e descontextualizada, servem mais para passar a ilusão de que se está construindo conhecimento do que para proporcionar aprendizado real.

Se você passa muito tempo escrevendo textos densos, articulados, expressivos e opinativos, desenvolvendo sua capacidade de argumentação e persuasão, buscando sempre promover a inter-relação dos conteúdos novos com os antigos, corre o sério risco de largar anos-luz à frente da concorrência e, pasme, ser aprovado. Isso nunca!

 

Estude todas as matérias ao mesmo tempo desde o início da preparação

É uma estratégia ótima para começar o projeto com o pé esquerdo. São muitas matérias, afinal! Organizando bem, dá para estudar duas horas de cada uma delas por semana! Em um mês, terá estudado oito ou dez horas de francês. Mais do que suficiente para ser fluente em um ano, não é? É irrelevante se algumas matérias dependem de um sólido conhecimento de outras para serem compreendidas com mais facilidade. Outras são, digamos, mais independentes e têm menos conteúdo. Essas matérias deveriam, caso o estudante contasse com eficiente planejamento estratégico de estudos, esperar um pouco mais para entrar em contexto ou até terem ajustada a quantidade de horas totais de estudo. Um plano mal feito ignora a confusão gerada pelo excessivo número de matérias concomitantes. Além disso, deve ser muito relaxante estudar cinco ou seis disciplinas com as quais não teve contato desde o ensino médio (e com outras nunca) já no começo da preparação, não acha?

Privilegie a motivação sobre a disciplina

O ceacedista matusalém precisa de alguém ao seu lado lembrando o tempo todo o quanto aquele projeto é importante para ele. A responsabilidade pela realização de seu sonho, mesmo sendo pessoal e intransferível, cabe sempre a outrem: as noções de vocação e de realização pessoal e profissional são entendidas como extrínsecas. Você não vai querer desenvolver um dos atributos mais valiosos para o sucesso na vida: a aplicação da disciplina. Não importa quantos livros ainda há para estudar ou quantos textos restam a escrever. Quando estiver cansado ou desanimado, esqueça os livros por um instante e procure recobrar o ânimo de outras maneiras. Prefira acreditar que essas oito horas perdidas não farão falta, afinal, a motivação controla a disciplina: quem tem mais vontade de emagrecer perde peso mais facilmente do que aquele adere melhor à dieta, não é mesmo?

O estudante ineficiente passa horas falando do planejamento que nunca começou; de como gosta de estudar; discutindo se vale a pena comprar uns livros, que nunca lerá (sim, comprar livros nos dá a falsa sensação de engajamento nos estudos: fulana tem 100 livros, deve estar muito preparada!); falando excessivamente sobre aspectos da carreira que só fazem sentido depois de cinco anos após a aprovação; comentando falas polêmicas do chanceler com pouquíssima probabilidade de serem objetos de prova; interessando-se e acompanhando assuntos até relacionados com a diplomacia, mas sem relevância no concurso, etc. Essa postura divagadora e delirante, pouco pragmática, parece ser mais sintoma justamente de uma motivação exacerbada, que se transfigurou em ansiedade. Ela atuará, ao fim e ao cabo, como uma distração em prejuízo da aplicação da disciplina, ou seja, do cumprimento de suas responsabilidades. Mas o importante é sonhar, como dizia a Rainha dos Baixinhos!

Não perca tempo com mapas mentais

Eles tomam tempo, e é necessário ter ou desenvolver alguma (não muita) habilidade artística para criá-los. O domínio (ou fluência) da técnica exige algum esforço de aprendizagem. Em compensação, a elaboração dos mapas torna-se bem mais rápida e sofisticada com a prática. Para produzirem seu efeito mais nocivo de ajudar a passar no CACD, os mapas mentais devem ser a representação visual e pessoal de como os assuntos estão organizados e inter-relacionados na mente. Quanto mais seus mapas estiverem impregnados de personalidade, mais sentido eles farão para você e mais instantâneo será o resgate mental e a reconstrução de seu conteúdo na hora de responder uma questão da prova. Tenho convicção de que minha aprovação decorreu, em grande medida, do uso recorrente dessa valiosa ferramenta de estudo. Você não quer isso. Asseguro, com conhecimento de causa, que os mapas mentais são uma das ferramentas mais potentes para dar conta de um dos principais pilares para a aprovação: o domínio do conteúdo do edital. Graças ao uso regular dos mapas, consegui produzir respostas, baseadas neles, que receberam nota máxima na terceira fase.

Por último, os mapas são valiosos por serem um material de rápida revisão, excelentes também para as vésperas de qualquer etapa (inclusive as objetivas), período em que produzem ótimo efeito se usados com o objetivo de identificar lacunas de aprendizagem em alguns pontos específicos da matéria e testar sua facilidade de reprodução do mapa: muito útil no momento da prova. Evite-os, portanto!

Prefira estudar por mapas mentais feitos por outras pessoas, ou pior, produzidos profissionalmente por meio sistema de computador

O próprio processo de confecção do mapa cumpre função importante na retenção de seu conteúdo. Seu valor está no trabalho de desenhar cada linha; em pensar na melhor posição para cada conceito ou item; em refletir sobre a estrutura da rede de associações entre os temas, na taxonomia dos assuntos; na escolha de cores, dos recursos visuais complementares (gráficos, desenhos, ícones); e principalmente na intimidade que criamos com cada um deles, já que refletem, de certo modo, nossa personalidade e a forma como nos deixamos impregnar pelo assunto estudado, como denotado anteriormente.

Esses esquemas visuais (mapas mentais ou diagramas) quando formatados em um sistema de computador profissional (ou seja, quando são bonitos demais para terem sido feitos pelo engenho humano, como a foto do hambúrguer do McDonald’s), por mais que pareçam úteis pela apresentação sofisticada e pretensamente didática, são interpretados pelo cérebro como apenas mais um estímulo visual no meio do bombardeio de imagens banais e irrelevantes que recebemos diariamente, por todos os lados.

São tratados, pelo filtro da memória, vistos pelo prisma da irrelevância, como as dezenas de anúncios de propaganda, posts de Instagram, fotos de notícias e tudo mais com que nos deparamos diariamente. Tendem, portanto, a ser ignorados e até esquecidos. Por mais que você se empenhe para decorá-los (e sim, todo processo de aprendizagem envolve um esforço consciente de memorização), será um processo mais artificial e menos orgânico do que preferisse memorizar seus próprios diagramas. Faz sentido?

Considere, por exemplo, a seguinte situação: você quer montar um móvel que comprou desmontado nas Casas Bahia e tem em mãos um manual de montagem descritivo, sem imagens de apoio, e um outro esquema visual de montagem. Você resolve, para treinar a técnica de estudos, ignorar o guia visual que recebeu e criar à mão seu próprio diagrama de montagem, com base na versão de texto da explicação. Você acredita que conseguiria resgatar mentalmente de maneira mais fiel, no futuro, o diagrama visual que você mesmo fez ou o outro, também visual, que acompanha o produto — feito, portanto, por outra pessoa e por computador?  

Esses mapas prontos, quando elaborados por outra pessoa e/ou em computador, atendem melhor, portanto, o cumprimento de tarefas pontuais, que não requerem a perenidade das informações na memória. Se usados com a finalidade de retenção de conteúdo na memória de longo prazo, pouco farão além de dar a falsa impressão de aprendizado, como muitas outras técnicas de estudo comumente recomendadas e citadas em outro subtópico deste manual. O estudo para o CACD exige métodos mais eficientes que esses. Mapas computadorizados e/ou emanados de punhos alheios são bons, portanto, para você montar uma estante comprada no Ikea, mas não para lidar com a complexidade dos assuntos abordados no CACD. Confiar a qualidade de sua aprendizagem a esse tipo de material é ainda pior (ou melhor, para você, que quer reprovar) do que não usar mapas mentais.

A venda desse tipo de produto já pronto faz sentido do ponto de vista do empresário de cursinho, pois a oferta encontra a demanda: — Ora, mapas mentais tomam tempo; os alunos não querem ter o trabalho de fazê-los; os mapas à mão são geralmente pouco melhores que garranchos; mapas digitais impressionam pelo visual! Vamos então vender os mapas prontos, feitos no computador! Vamos pedir aos professores para montá-los! Por mais bem-intencionada que a empresa ou pessoa que fez o mapa esteja ao tentar vendê-lo para você, ao comprá-lo, você está entrando para o grupo dos prováveis derrotados, que estimo ser mais de 99% dos candidatos. Se tiver oportunidade, pergunte aos aprovados se compravam seus mind maps prontos. Eu apostaria em um quase unânime não! Nem todos vendendo mapas prontos ou computadorizados são gatunos de olho no seu dinheiro, embora os haja aos montes, eles apenas não têm o conhecimento pedagógico necessário para dar-se conta da ineficiência do método. Perdoai-os, portanto, pois apenas não sabem o que fazem! Sendo assim, ignore tudo isso e dê-lhes um voto de confiança: o melhor abraço é o do afogado, que carrega você junto para o fundo do mar!

Leia as notícias internacionais diariamente, pelo tempo que for necessário, mesmo se prejudicar seu tempo de estudo

As estatísticas mostram que as questões sobre atualidades ou acontecimentos recentes estão longe de ser a maioria nas provas de Política Internacional e Geografia. São aquelas que vemos nos jornais todos os dias e achamos que são relevantes para o concurso. É óbvio que o candidato que não quer passar, como você, meu eterno quase colega, não considera os dados estatísticos e distribui de modo desproporcional seu foco e tempo entre a leitura de periódicos (que compreendem cerca de 5-15% dos assuntos que costumam cair na prova) e o estudo de outros temas (correspondentes a 85-95% dos conteúdos das últimas provas). Relaxe, deixe isso pra lá, volte para seus jornais do dia. Seus verdadeiros colegas, os do cursinho, ficarão impressionadíssimos. Assim, você não só continua sabotando seu próprio projeto, mas também ludibria os demais quartos-secretários. Como eles deverão fazer o mesmo, tem-se uma espécie de ilusão coletiva que se retroalimenta. Também é muito útil para pavonear-se diante de familiares e amigos. Não faltará companhia para comemorar a almejada reprovação.

A mera popularização de plataformas online de compilação de notícias —  inegavelmente úteis, quando usadas corretamente, ou seja, com a devida parcimônia — acaba reforçando esse entendimento de que o foco da preparação deve ser em notícias, pelas mesmas razões que os candidatos tendem a impor-se o cumprimento do cronograma dos cursinhos, em prejuízo de seu próprio ritmo de estudos e de sua etapa de maturidade intelectual. Se todo mundo lê a compilação de 30 matérias por dia de tal site ou se o cursinho diz que tenho que matar a parte de Colônia em determinada semana, melhor que eu o faça, ou ficarei atrasado em relação às notícias, às aulas ou ao programa deles! Se não aprendi bem, pouco importa, depois eu aprendo! Só que esse depois nunca chega. Melhor para você, que verá seus sobrinhos crescerem perto de você.

Acompanhe de perto, nos periódicos, a política interna do Brasil

Política interna não cai na prova, mas é muito legal estar informado e demonstrar para a família e os amigos que, como futuro-eterno-quase-diplomata, você sabe conversar sobre tudo, e não só sobre o que cai na prova. Se quiser potencializar isso, passe minutos e até horas preciosas do seu dia (subtraídas do estudo, claro!) distribuindo comentários e entrando em polêmicas de grupos em mídias sociais. O bom da polêmica é seu poder de distração. É excelente para  drenar energia e desviar-nos do foco principal! Melhor ainda quando nada acrescentam às suas perspectivas sobre os assuntos que realmente constam da prova. Ainda para piorar intencionalmente seu desempenho na prova, evite acompanhar posições oficiais por fontes primárias: prefira informa-se e apurar sua capacidade analítica por meio da leitura de excertos de falas retiradas de contexto, tão caros aos veículos de direita e esquerda. Seja como eles e seja parcial: veja apenas um lado da moeda! Sendo assim, o terceiro-secretário que tomará posse este ano despreza opiniões enviesadas, ignora política interna e somente estuda o que é cobrado no concurso. Não siga esse exemplo!

Participe ativamente dos principais fóruns de Facebook e conheça os principais studygrams do Instagram

Quase todos sentimos a necessidade de compartilhar conhecimento. Uns mais que outros. Graças a isso, há muitas páginas de estudo no Instagram e Facebook que cumprem uma função importantíssima: popularizam listas de fontes bibliográficas recomendadas, métodos de organização, ensinam técnicas de estudo e comentam livros que estudaram. Outro papel relevante é a avaliação que fazem dos serviços de preparação para o CACD oferecidos pelo mercado. Essas pessoas dedicam tempo (roubado de seus próprios estudos) para o benefício de outras pessoas, mas em prejuízo próprio. É uma atividade nobre, de muito altruísmo. Como profissional da área de ensino, nutro profunda admiração por quem se dispõe a manter um blog de estudos. Devo parte de minha aprovação à comunidade de Orkut na qual costumava trocar dicas de prova e recomendações de livros com então futuros colegas. Ressalva feita, quem quer genuinamente passar conhece os principais studygrams, porém não mora neles. Candidatos fadados ao fracasso passam grande parte do dia pulando de perfil em perfil, em busca do novo furo que não fará a menor diferença ou de uma nova recomendação bibliográfica de um livro que jamais lerão. Nunca estão satisfeitos com o projeto que têm em mãos, pois a grama do vizinho é sempre mais verdinha. Para falhar com maestria, esqueça que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

Compartilhe, indiscriminadamente e sem esperar nada em troca, seus melhores resumos, PDFs e materiais de estudo

Uma estratégia infalível para ajudar a concorrência é compartilhar altruisticamente seu melhor resumo de Casa Grande & Senzala ou de Os Donos do Poder, de preferência em fórum digital a que muitas pessoas tenham acesso. Dessa forma, ao doar, sem receber nada em troca, um resumo de um livro que passou trinta horas estudando e mais dez resumindo, você poupa ao menos 35 horas de estudo de cada concorrente seu que tiver acesso a ele. Torça para que façam bom proveito desse tempo que ganharam e o apliquem na leitura de outras obras que você jamais lerá, porque está ocupado fazendo resumos para os outros. Assim, você fica sempre atrás deles. Ser altruísta, principalmente numa guerra, a favor do inimigo, é receita certa para a derrota. A troca de materiais é válida, sempre que se obtém dela um benefício maior ou igual ao agraciado. Mentalize o filme Jogos Vorazes. No jogo, os competidores que obtêm os melhores armamentos e os que detêm as estratégias defensivas mais sofisticadas é que são os finalistas. Perde o jogo quem entrega aos inimigos suas armas mais destrutivas. Entendo que nos sentimos bem ao compartilhar. Ninguém doaria aos menos necessitados se o ato causasse uma depressão profunda no doador. Não é à toa que o altruísmo pode ser visto como uma manifestação sofisticada do egoísmo.

Palavras finais

Creio ter cumprido a missão de escrever o melhor guia de reprovação no CACD disponível, talvez por ser o único. Pelo menos nunca tomei conhecimento de um escrito por outro colega diplomata. Apesar de longo, ele não esgota as receitas para o fracasso, que está sempre ali, à espreita, aguardando para dar uma rasteira em seus sonhos no seu primeiro vacilo. Este texto é tão carregado de sinceridade quanto de ironia. Essa última acaba aqui. Peço que não se ofenda com meu tom provocativo e jocoso.

Este artigo apenas reproduz minha visão particular (e do contra) do assunto, moldada em minha experiência pessoal, estudos e aplicação prática dos conceitos que defendo. Não pretendo, nem de longe, impor pontos de vista, pregar verdades universais ou ditar caminhos únicos para o sucesso, pois não existem.

Apresento apenas o que são, para mim, atalhos. Espero que discorde de vários pontos suscitados aqui (se os interpretou às avessas, claro!). Se o fizer, significa que refletiu sobre eles e chegou a suas próprias conclusões, que gostaria de conhecer e debater com você. Sou bastante acessível pelo Instagram e sempre respondo quem me escreve.

Quis ainda mostrar minha indignação com os métodos de estudo propagados pelo mainstream da preparação para o CACD. A culpa é, de certa forma, nossa, diplomatas, que, quando aprovados, nos colocamos alheios ao concurso, encastelados no Palácio dos Arcos, abandonando os que jazem caídos no campo de batalha. Infelizmente, nem todos os diplomatas têm o dom da docência, ainda que tenham muito a transmitir não só em termos de experiência profissional e específica sobre os temas da carreira, mas também a respeito das sutilezas do próprio concurso de admissão ao Itamaraty e das vicissitudes da preparação, pelas quais todos passaram. Como disse, é temerário contratar alguém que lucra dando conselhos sem arriscar nada próprio. Mais perigoso quando essas pessoas não são especialistas no concurso e na carreira, seja porque nunca passaram, seja porque estão apenas ocupando um vazio deixado pelos diplomatas.

Sem desmerecer os professores das mais variadas matérias (e há tantos geniais que não caberia os listar em uma página apenas), poucos são generalistas o suficiente para saírem de sua área de especialização com a destreza suficiente para orientar um projeto completo e ao mesmo tempo personalizado de aprovação em todos os seus aspectos: planejamento, distribuição de tempo, seleção bibliográfica, organização, definição de métodos de aprendizagem, aplicação de técnicas de estudos, uso estratégico de simulados, equilíbrio do conhecimento entre as disciplinas, priorização de temas de estudo por meio de análises estatísticas, etc.

Se já é difícil para quem passou na prova guiar a preparação de um outro futuro colega, imagine para quem não passou! Não por acaso os melhores treinadores são ex-atletas.

Nos últimos meses, tomei conhecimento, por meio de dezenas de candidatos, do sentimento quase generalizado de que faltam opções acessíveis para o caecedista que deseja se preparar de forma independente e completa. Queixam-se que os cursos extensivos custam uma pequena fortuna e que os programas de coaching/mentoria são impagáveis (sendo caro o custo da hora dos diplomatas, outros tipos de conselheiros ou trombeteiros se apresentam como solução). O principal receio que têm é que ficarão para trás da concorrência caso não comprem aquele produto da moda.

Para concluir, gostaria de deixar uma mensagem central: para ter sucesso no CACD, afaste-se da mediocridade, do nivelamento por baixo, incremente sua capacidade cognitiva, acostume-se a estudar prioritariamente sozinho, sem muletas, conduza seus estudos com diligência e desenvolva a habilidade de expressar-se de forma analítica, interessante e persuasiva por meio do texto. Há toda uma rigorosa banca examinadora a seduzir. Essas quatro ou cinco linhas não dão conta de descrever, contudo, o tamanho do esforço de preparação, que pode levar anos, já que a média de tempo de estudo para a aprovação no concurso é de pouco mais de quatro anos. Quem tenta transmitir a ideia (por meio da venda de serviços) de que é fácil ou comum passar com poucos meses de estudo está servindo-lhe veneno em taça de ouro.

Por último, enfrentar o CACD requer do candidato o que um brilhante autor chama de antifragilidade, que é a capacidade de resistir e de ficar mais forte diante do imprevisível e das adversidades com que nos deparamos ao longo da vida. É transformar o choro que acompanha uma reprovação no sorriso que inaugura, já no dia seguinte, uma nova temporada enriquecedora de estudos. Não jogue fora quatro anos de sua vida numa rotina e numa vida que você não quer ter: deixe-se guiar pelo que o estimula, não pelo que você repele. Programe-se para ser feliz apesar das obrigações, da incerteza e da muitas vezes excessiva cobrança auto-imposta e curta todo o processo de aquisição de conhecimento que vai mudar sua vida, independentemente da aprovação.

Marcílio Falcão (@falcao.marcilio) é diplomata de carreira há quase 12 anos e orientador para o CACD. Jornalista de formação, iniciou-se na docência há 23 anos e se dedicou, de forma intermitente, desde sua aprovação no CACD, à preparação de outros candidatos ao concurso.

Aperfeiçoou-se em planejamento, organização, métodos e técnicas de estudos voltadas para concursos públicos, conhecimento com o qual concebeu, para empresa de destaque no mercado, um programa de coaching e de planejamento de estudos utilizado por centenas de candidatos a diversas carreiras públicas. É fascinado por esculturas, violão, churrasco, powerlifting, xadrez e finanças.

É primeiro-secretário da carreira. Foi subchefe de Pessoal do Ministério das Relações Exteriores, cônsul-adjunto em Barcelona, chefe do setor de Política Externa, Cooperação Técnica, Temas Sociais e Ciência & Tecnologia da embaixada do Brasil no Paraguai. Atualmente está lotado em Angola.

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