Estratégias Eficazes para o Estudo de História do CACD

Nesse artigo mais que especial, o diplomata Jonas Marinho discorre sobre os elementos que fazem parte de uma preparação eficiente em História do Brasil e História Mundial, abordando aspectos como um bibliografia inicial, o debate entre a forma e o conteúdo e a importância do conhecimento dos fatos na construção de sua própria narrativa.

Ler na íntegra

Tic-tac – parte II

Perfil do candidato; estudando como será cobrado; planejamento; organização; seleção e aplicação diária de métodos e técnicas de estudo; atualidades e idiomas; seleção bibliográfica

O que está errado nos métodos que usamos?

As maiores contribuições que posso trazer à sua preparação decorrem do princípio da especificidade. Já tratei de que formas ele é um dos definidores da excelência dos métodos de estudo em um extenso texto desta página, no programa de orientação do Grupo Ubique, além de vídeos e debates no YouTube de que participei. Neste texto, resolvi explorar formas mais pragmáticas de aplicá-lo.

É mesmo penoso começar e recomeçar os estudos. Não fomos educados (nem treinados) para sermos excelentes aprendizes. Preocupamo-nos com isso apenas quando nos deparamos com o vestibular, OAB e, por último, quando consideramos fazer um concurso público. O fato de querer ser um servidor do Estado já diz muito sobre nossa personalidade: somos avessos ao risco! Aceitamos o fato de que limitaremos nosso potencial de ganhos financeiros em troca da segurança de um salário fixo. Entendemos que jamais será como na iniciativa privada, que oferece possibilidades de compensações estratosféricas a profissionais com talentos e qualificações não necessariamente superiores aos dos diplomatas. Privilegiamos o conforto de entregar nosso futuro nas mãos de uma instituição em vez de abraçar o desafio de empreender e abrir uma empresa. Isso influencia inexoravelmente a maneira como nos posicionamos diante dos métodos de estudos e como aceitamos (e pedimos) ajuda em nosso processo de preparação. 

Isso explica, em parte, por que nos conformamos em seguir a maré do mercado de concursos. Os primeiros cursos de preparação voltados para a massa de concurseiros foram pensados para a aprovação para cargos da área jurídica. Não poderia ser diferente! Aqueles para outras áreas só proliferaram de uns anos para cá. Não valia a pena abrir um curso para o universo tão pequeno dos ceacedistas. E aqueles professores ou empresários pioneiros que o fizeram, com maior ou menor sucesso, obviamente beberam da única fonte que existia, a jurídica, e trouxeram a solução que parecia mais óbvia: dar aulas. É aquela história de que tudo é prego para quem só tem martelo. Para quem é programador, a melhor solução para qualquer problema passa pela criação de um sistema. O professor dará uma aula quando quiser que alguém aprenda algo. Não tenho nada contra as aulas, só acho que a maioria das pessoas não sabem como tirar o melhor proveito delas. Entretanto, conheço professores brilhantes que sabem como ajudar imensamente nesse aspecto.

Com o avanço da Internet e da possibilidade de aulas on-line, o leque se ampliou, abarcando também outras carreiras exóticas, como a nossa. Mas o estrago já estava feito. Praticamente todos os métodos que se desenvolveram na época embrionária do que é o hoje o que chamo de mercado mainstream de concursos públicos ganharam corpo a partir de um conjunto de pressupostos que não se podem aplicar indiscriminadamente a qualquer certame, especialmente ao CACD, quais sejam:

a) Os cargos jurídicos exigem, de fato, o conhecimento quase que literal das letras de lei. Nesses casos, a memorização é essencial;  a aplicação do juridiquês não é um óbice à aprovação, não sendo comparativamente tão relevante que os candidatos naveguem com fluidez entre os gêneros textuais, nem que se preocupem em refinar o estilo da linguagem que empregam em seus textos. Vejo uma ênfase exagerada na retenção de informação em contraposição ao desenvolvimento da habilidade de resgatá-la e usá-la ativamente, que pressupõe um envolvimento pessoal com a matéria, impossível de conciliar com o calendário rígido dos cursinhos;

b) Não faz parte da preparação jurídica a exigência de estar familiarizado com atualidades externas ou internas. O aspirante a diplomata foi levado a crer que apenas o hábito de leitura de clippings de notícias suprirá essa necessidade de estar atualizado. Nesse caso — e dando o benefício da dúvida ao mesmo mercado que costumo atacar —, aplico a navalha de Hanlon e reconheço que não foi por maldade, mas por falta de conhecimento pedagógico, que criaram esses métodos. Afinal, faz sentido associar uma carreira internacional à leitura assídua de notícias externas. Você não será cobrado pela quantidade de artigos que leu ou pelo seu nível de conhecimento das atualidades, mas sim pela forma como consegue ressignificar e expressar seu próprio entendimento da realidade a partir do conhecimento de fatos. Quando sua compreensão é coerente, as respostas são mais facilmente inferidas na hora da prova. A banca sempre criará algumas questões objetivas com o propósito deliberado de que sejam respondidas erroneamente. Ter a falsa ilusão de que vai conhecer tão bem todos os fatos da atualidade a ponto de não errar nenhum desses itens é uma aposta perigosa. Além do mais, o desvio padrão das notas de PI é baixo (grosseiramente, a média das notas altas é baixa), isto é, suas chances de aumentar sua nota dedicando mais tempo a essa matéria (e consequentemente às notícias) são menores do que se o fizer com outras;

c) As matérias da área jurídica são similares. O jargão e a linguagem empregada tendem a ser os mesmos. Não é o caso no CACD, em que convivem matérias tão díspares quanto Economia e Inglês;

d) As provas jurídicas, sobretudo as de nível médio, almejadas por centenas de milhares de candidatos (técnicos de tribunais, por exemplo), têm ênfase desproporcional em questões objetivas. Por isso, requer-se o domínio de técnicas de estudo específicas para esse tipo de desafio;

e) Carreiras jurídicas não exigem fluência escrita em tantos idiomas estrangeiros. Por mais que neguem o fato, é muito difícil compaginar o estudo de três línguas, fato que tende a dilatar o tempo de preparação para a prova de diplomata. Um colega mais graduado questionou-me se há muitos candidatos que começam a estudar francês ou espanhol do zero. Espantou-se quando eu lhe disse que sim. Ele dava por certo que as pessoas já dominavam os idiomas estrangeiros quando tomavam a decisão de estudar para o concurso;

Em resumo: o ceacedista mal-sucedido não se prepara da forma que será cobrado, nem entende (ou não pratica, o que é pior) que escrever é a melhor e mais específica forma de aprender. Entendo que isso dificilmente poderia ser diferente quando vejo as pessoas buscando conselhos de orientadores que nunca passaram na prova nem são professores especialistas nas matérias. No fim das contas, esses coaches de fora da carreira são vegetarianos que se metem a fazer churrasco.

Planejamento de longo prazo sob a ótica da especificidade

Toda decisão a respeito de que método ou técnica de estudos a ser aplicada em uma situação concreta deve passar necessariamente pela navalha da especificidade. As atividades terão tanto mais valor quanto mais ajudarem a capacitá-lo ao desafio, à experiência e às circunstâncias reais que as provas lhe trarão. Não haveria razão alguma para realizar uma tarefa que não tenha como utilidade principal melhorar sua capacidade de: 1) expressar-se por meio da escrita e construir sua própria versão do conteúdo estudado; 2) julgar os itens objetivos da prova; e 3) lidar com os crivos não tão óbvios do CACD, quais sejam, aqueles relacionadas com o ato de superar a maratona de provas. Vejam que não citei a capacidade de leitura e interpretação. Deixei de fora porque ela está contida na habilidade da escrita. Todo mundo que sabe tocar um instrumento sabe ouvir música, mas nem todos que ouvem música saberão tocar algo. Poucas frases são menos verdadeiras que “quem lê bem, escreve bem”, o tipo de bobagem que as pessoas escutaram alguma vez na vida e repetem como papagaios.

Cada tipo de atividade ou método tem um momento certo para entrar em jogo, tanto no nível do macroplanejamento quanto no micro, quer dizer, no tático. É o primeiro corolário do princípio da especificidade: à medida que a prova se aproxima, toda atividade de estudos deve se parecer cada vez mais com a situação real que você enfrentará. Se é para ser inespecífico, que seja longe da prova. Se a tarefa, o método ou a técnica não contribuem diretamente para seu objetivo geral (ou concreto do mesociclo, como veremos adiante), descarte-a.

Quando sentar para planejar seu próximo macrociclo de estudos (o ano de estudos até a prova seguinte), leve em consideração o corolário temporal. Cada método tem um momento em que produz seus melhores resultados. Lembre-se que você está se preparando para duas provas diferentes — uma objetiva e uma subjetiva, ambas com características não só distintas mas conflitantes em muitos aspectos. A cada período de estudos, algumas habilidades inevitavelmente se desenvolverão em prejuízo de outras. Isso é saudável e desejável. Não é por nada que os primeiros lugares da primeira etapa historicamente tendem a refazer o concurso no ano seguinte: dedicam um esforço desproporcionalmente alto à retenção de informação. Na hora de escrever, faltam articulação e técnicas de sedução. Levando isso em conta, gosto de dividir um plano anual em três fases sequenciadas, ou mesociclos, de duração flexível e objetivos definidos, que correm concomitantemente a um outro projeto (que tem a ver com redação, idiomas e atualidades), que abarca todo o período entre dois certames.

No primeiro mesociclo, que chamo de fase de acumulação, você se expõe ao conteúdo para ganhar uma compreensão básica e genérica deles. É um bom momento para ler livros ou apostilas, ver aulas e se familiarizar com o jargão das matérias. Não deve ser demasiado longo. Em quatro meses você já tem a noção do que ainda não sabe, ao tempo em que consegue ler uma prova de primeira etapa sem achar que está em grego. É saudável, nesse período, construir uma noção educada do que você poderia dizer a respeito dos assuntos se tivesse que explicá-los de forma elementar. Uma apostila ou livro por matéria — talvez dois ou três, em alguns casos — dá conta. No fim do artigo, há sugestões de leitura para cada matéria. Os candidatos avançados e aqueles que já fizeram a prova mais de uma vez aproveitam esse período para se aprofundar nas leituras. Estudar novas fontes que ajudarão a melhorar seu entendimento dos conteúdos e enriquecer suas apostilas. Esqueça os simulados nessa fase. Serão uma distração indesejada.

O primeiro período de estudos deve ainda ser subdividido em meses ou semanas em que se agrupam determinadas matérias e se colocam outras em modo de manutenção. Faz sentido, por exemplo, deixar os livros de Política Internacional para depois de História Mundial. Estudar História do Brasil, História Mundial e Geografia juntos também é desejável. Economia (com exceção de História Econômica) e Direito, por serem mais técnicas e menos extensas, podem vir depois de o candidato ter construído uma base razoável nas demais matérias.

No segundo período, além de realizar leituras mais aprofundadas sobre os temas que já estudou, o candidato certifica-se que está apto a passar na primeira etapa. Sem isso, não adianta ser o ás das canetas. Este ciclo exige que você acerte todas as questões que já caíram. Refaça as que errou e deixou em branco até ter certeza que não restam dúvidas. Há ainda os mecanismos de interpretação das questões que extrapolam o conhecimento do tema cobrado. Domine-os. Já tratei deles em outros meios e devo fazer novamente nessa temporada visando o CACD 2020. Dê o ciclo por encerrado quando tiver a certeza de que a primeira etapa está no bolso. Aprofunde os estudos com leituras e aulas para suprir as lacunas de conhecimento identificadas durante a realização das questões. Leia sobre o que errou. Pergunte-se sempre se deixou de acertar os itens porque não sabia do conteúdo ou porque não os interpretou sob a ótica de um examinador. Lembre-se que a banca, para se blindar de recursos, deixa pistas da resposta certa na linguagem que utiliza. Prepare-se para passar na primeira etapa, mas cuidado com o que deseja: se exagerar, você pode acabar sendo o primeiro colocado nessa fase. E ele quase nunca passa. O diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

O último mesociclo começa na publicação do edital e vai até a última prova. Por razões óbvias, ele muda de característica uma vez superada a primeira etapa. Serão alguns meses em que sua ocupação principal será certificar-se, mais uma vez, de que está afiado nas questões objetivas, refazendo e revisando todas as questões passadas, e que escreveu sobre os assuntos de prova. Agora, ganham pertinência alguns hábitos e práticas que até o momento não eram relevantes (pelo menos não para sua rotina, mas serão para a prova), como a caligrafia, a capacidade de escrever por horas a fio, a estabilização do ciclo circadiano, a noção do tempo necessário para preencher a folha de respostas, o ritmo de linhas escritas por minuto e tantos outros detalhes. Você agora só escreve à mão. Também é o momento em que você completa suas apostilas sobre os temas novos do edital.

Veja como prefiro apostila, e não caderno, uma vez que ela remete a uma construção organizada, estruturada, à ideia de compilação que será lida por outra pessoa. Caderno é algo mais pessoal, íntimo, que não respeita forma, já que ninguém precisa lê-lo. A preocupação de que o que você escreve seja lido tem que estar sempre presente. Um texto escrito para outros incorpora elementos de persuasão, ênfase e argumentação que tendemos inconscientemente a omitir quando escrevemos para nós próprios. É, por mais que não pareça, uma atividade muito distinta.

Escrever excepcionalmente bem não deixa de ser a manifestação de um lado obsessivo e neurótico de nossa personalidade, que uns têm mais aflorados que outros. Digo no bom sentido. É o perfeccionismo na busca pela melhor palavra para o contexto; a agonia de ver um hífen se fazer passar por travessão; a busca pela eufonia; o cuidado extremo de não permitir dois espaços juntos no texto; a mudança da ordem dos termos na oração para causar os efeitos estilísticos e de ênfase desejados. Os melhores escritores que conheço entre os diplomatas são o tipo de gente que tem o hábito de escrever para a Wikipédia e participar das discussões sobre a alteração de verbetes. Preocupam-se com a neutralidade da linguagem e com a clareza da mensagem. Elas têm uma capacidade formidável de convencimento: seus telegramas (como chamamos as comunicações entre os postos e a Secretaria de Estado) parecem fotos ou filmes. Uma releitura quase nunca é necessária. Essa fluência textual é desejada desde agora, já que cada frase truncada, letra mal desenhada, referência anafórica, impropriedade de estilo ou de uso de vocabulário será uma oportunidade de o examinador — que cada vez mais tende a ser um diplomata — cortar pontos de sua nota. Como dizia Bruce Lee: seja [claro] como a água, meu amigo!

Passada a primeira etapa, nem preciso dizer que sua prática de estudos deve consistir em simulações de situações reais de prova. Faça sorteios de temas e escreva sobre eles sem ter tempo para se preparar; responda todas as questões discursivas que já caíram, no formato requerido pela banca, e compare-as com as melhores respostas dos guias animalescos; preocupe-se mais ainda em produzir conhecimento do que em consumir. Essa obsessão deve estar presente desde o início de sua preparação. Nunca é demais reforçar este ponto: você não é cobrado pelo que absorve, mas pelo que consegue produzir e apresentar. É o melhor momento para se certificar de que carrega na memória todos os cartões, snippets, esquemas e mapas mentais que fez. Se não lembra deles durante os estudos, como vai resgatá-los na hora da prova? Repito: você não será cobrado pelas aulas a que assistiu ou livros que leu, mas pelo texto que escreve na lauda do IADES.

Apostilas

Paralelamente aos três mesociclos propostos, nada pode fazer mais sentido do que levar a cabo um projeto de construir suas próprias apostilas das matérias. Essa tarefa começa no primeiro dia dos estudos, com suas primeiras anotações. Elas devem servir de insumo (junto com as aulas e fichamentos) para a versão do texto que será tecido ao longo de meses e muito provavelmente anos. A apostila de cada matéria ou tópico terá, grosseiramente, quatro níveis: o primeiro é composto por anotações soltas e bullet points. São apontamentos desconexos entre si. São o esqueleto do que em seguida será a versão organizada. Um texto do segundo nível é uma espécie de resumo básico, normalmente sobre o primeiro manual que você leu sobre a matéria. Se pensou em um resumo do Boris Fausto, do Mankiw, do Burns, do Portella ou do Conexões, acertou. O terceiro nível incorpora, compila e sintetiza o conteúdo aprendido em diversas fontes. Já deve corresponder à sua própria versão do assunto, ser escrito em linguagem persuasiva, ser rico, interessante e estar no formato requerido pela prova. Provavelmente, você se dará por satisfeito se conseguir levar todos os seus textos ao terceiro patamar. O quarto nível é opcional: são aquelas redações perfeitas, modelos de prova, que chegariam perto da pontuação máxima. Serão os textos dos quais se orgulhar e, quem sabe, ver publicados no Guia da Palanca-Negra (já deixando uma sugestão de nome para o próximo). Por causa de todo o esforço e tempo para produzi-los, não são todos os temas que merecem ser tratados nesse nível, só aqueles mais recorrentes e multidisciplinares.

Atualidades e idiomas: output versus input

As notícias e as atividades ligadas ao aprendizado dos idiomas estrangeiros também também farão parte de toda a preparação. Uma rotina extremamente ineficiente consiste em começar o dia lendo as notícias, depois avançar nas leituras de livros, assistir às aulas programadas do cursinho (de um calendário criado por alguém que ignora sua existência), fazer uns exercícios de gramática (inglesa, espanhola, francesa ou portuguesa, não importa!) e, se der tempo, escrever algo ou revisar ou reler anotações de aula. E o fato de essa ineficiência não ser tão óbvia é que torna esse método mais pernicioso. Normalmente recomendo a meus orientandos que tratem as notícias e os discursos oficiais como insumos para a confecção de suas próprias apostilas temáticas e não como um fim em si. Simples assim. Veja o que interessa e atualize seus textos. O mais importante de tudo isso será o efeito que você vai conseguir provocar no examinador. Outro ponto a considerar é que é extremamente desgastante o esforço de estudar do zero mais de um idioma estrangeiro ao mesmo tempo. Muita gente falha ao tentar aprender apenas um, quem diria três! Considere realizar ciclos de estudos dos idiomas. Nesse caso, alterne períodos de estudo intensivo e manutenção. Se não sabe nada de francês, estude-o por três meses. Nesse tempo, o espanhol fica em ritmo de manutenção. E vice-versa.

A aplicação diária do planejamento

No nível tático, cada dia de estudos também deve ser montado seguindo o princípio da especificidade e de forma coerente com seus objetivos gerais. Por isso, em um dia normal de estudos, faz muito mais sentido seguir a sequência:

a) Atividades de produção de conteúdo:

    1. Escrever texto sobre tema da matéria, com foco na exposição do conteúdo (2ª etapa) ou resolver questões objetivas (1º etapa);
    2. Escrever texto dissertativo, com foco na forma;
    3. Escrever redação ou fazer resumo/tradução em idioma estrangeiro;

b) Atividades de teste de aprendizado:

    1. Revisar e memorizar anotações, mapas mentais, fichamentos;

c) Atividades de aquisição de conteúdo:

    1. Ler livros ou artigos sobre um assunto de prova;
    2. Conversar sobre um assunto de prova;
    3. Assistir aula sobre assunto de prova;
    4. Ler notícias.

Seu dia começa com a atividade mais semelhante à prova, que drena grande parte de sua energia, mas também é a que mais contribui para sua aprovação. O dia termina com a atividade mais passiva e menos específica. Simples, não? Não se preocupe. Numa rotina de doze horas de estudo, há espaço para todos esses tipos de atividades.

Seleção bibliográfica

A ênfase no que você produz em detrimento daquilo a que você se expõe (e absorve) relativiza o papel dos próprios materiais de estudo utilizados. Alguns candidatos acreditam que é preciso devorar mais de uma centena de livros para se preparar adequadamente para a prova. Eu achava isso. Aliás, fiz isso. Embora aprovado, essa abordagem me preparou melhor para a fase objetiva da prova do que para as subsequentes. O que mudou para quem tenta a prova hoje é que não basta tirar a nota mínima para passar na última etapa: os concorrentes devem ser batidos. Nesse contexto, a habilidade do convencimento pela escrita ganha mais importância. Mais uma vez, o output se impõe ao input.

Por tudo isso, o ritmo de estudos deve ser o seu. Não existe matéria atrasada. Se já é custoso seguir um calendário ou programa que foi desenhado sob medida para você, desejo-lhe sorte ao tentar cumprir um programa genérico. Seu programa é o seu ritmo. Mastigue e saboreie os temas. Chore com eles. Deixe-se contaminar pelos sentimentos dos autores, pela linguagem empregada. Forme e compartilhe sua opinião. Procure a relevância dos temas onde aparentemente não há. Impressione. Melhor, seja impressionante e se deixe impressionar. Avance ao tema seguinte quando estiver seguro, e não porque uma folha de papel diz que chegou o dia de mudar o livro. Feynman diria que, se você não consegue explicar um determinado assunto a criança, não o aprendeu bem o suficiente. A ênfase no mero cumprimento do plano é, portanto, uma postura equivocada. Em contraste, quando nos concentramos na aplicação diária da disciplina e no processo em si, a aprovação será um desenlace natural e inevitável de todo o plano.

Aproveito o espaço para tomar a liberdade de sugerir algumas leituras que podem ser úteis tanto para a fase de acumulação dos estudos quanto para o aprimoramento das apostilas pessoais ou para servir de referência ocasional. Elas não são, de forma alguma, exaustivas. O mais provável é que você vai querer, uma vez superadas essas obras, aprofundar-se em temas específicos que gostaria de dominar melhor.

História do Brasil. O Povo Brasileiro (Darcy Ribeiro); Raízes do Brasil (Sérgio B. de Hollanda); História do Brasil (Boris Fausto); História Geral do Brasil  (Maria Yedda); História da Política Exterior do Brasil (Cervo & Bueno); Coleção História do Brasil Nação (Lilia Schwarcz); A Diplomacia na Construção do Brasil (Rubens Ricupero); História das Relações Internacionais do Brasil (Doratioto);

História Mundial. História da Civilização Ocidental vol. 2 (Edward Burns); História do Mundo Contemporâneo (Norman Lowe); O Mundo Contemporâneo (Demétrio Magnoli).

Português. Gramática da Língua Portuguesa (Celso Cunha); Comunicação em Prosa Moderna (Othon Garcia); Um Banquete no Trópico (Lourenço Dantas Mota).

Política Internacional. História das Relações Internacionais Contemporâneas (Sombra Saraiva); Teoria das Relações Internacionais (Messari).

Geografia. Geografia para o Ensino Médio (Demétrio Magnoli) ou Conexões: Estudos de Geografia Geral e do Brasil (Lygia Terra); Brasil: território e sociedade no limiar do séc. XXI (Milton Santos & Maria Laura Silveira); Geografia: Conceitos e Temas (Iná Elias de Castro); Atlas do Brasil (Hervé Therry).

Direito Internacional. Nenhum outro manual supera o Direito Internacional Público e Privado, de Paulo Henrique Portela, que, curiosamente, já foi diplomata.

Direito Interno. Apostilas do Estratégia Concursos.

Economia. Introdução à Economia (Mankiw); A Ordem do Progresso (Marcelo de Paiva Abreu). Manual de Economia da USP; Formação Econômica do Brasil (Celso Furtado); Formação Econômica do Brasil (Caio Prado Jr.); Economia Brasileira Contemporânea (Amaury Patrick Gremaud).

Tic-Tac — parte I

A frustração da reprovação; o (re)começo dos estudos; expectativas realistas de aprovação e metas de estudo.

Há 14 anos tenho participado da preparação de outros candidatos para o CACD. Não é com tanta alegria que revelo estar muito mais acostumado a lidar com a frustração da reprovação do que com a indescritível felicidade dos que passam, que são uma minoria. Entre os reprovados que sequer cheguei a conhecer, decerto há centenas que possuem atributos valiosíssimos para o exercício da profissão, mas que não são medidos pela provas. Eles seriam diplomatas excepcionais se tivessem a chance — possivelmente até melhores que os próprios aprovados. Infelizmente, eles esbarram na prova não porque carecem de capacidade. Se fosse o caso, o problema seria só deles. O problema passa a ser de todos nós brasileiros quando os potencialmente melhores deixam de ser selecionados porque não superam os crivos ocultos do concurso. É meu dever patriótico desmistificar esses crivos e contribuir para que todos os candidatos exerçam plenamente seu potencial durante a preparação.

O que me chama mais atenção nesse contato diário com os aspirantes à carreira (e não só os neófitos) é que poucos deles realmente sabem o que estão fazendo. Carecem de conhecimento de método e se iludem facilmente com a falácia de que os outros é que vão resolver seus problemas. Ainda moram na Terra do Nunca! Lá o tempo não passa, nem há regras. A gente voa, basta jogar um pozinho. Muitos agem como se o tempo não fosse acabar e mantêm as mesmas práticas que não deram e não darão certo. Sair da Terra do Nunca é acolher com convicção a ideia de que você é o único responsável pelo seu crescimento e se dispor a adotar as práticas adequadas e abandonar outras que têm sido danosas. A pior dessas práticas é, na minha humilde opinião, a busca pelo equilíbrio!

Equilíbrio gera conforto, o que nos impede de assumir os riscos que desafiam as probabilidades, como explorar um novo continente, saltar de paraquedas, casar-se, apostar em cavalos ou estudar para o concurso público mais difícil do país. O conforto nos protege do sofrimento mas também nos priva da adrenalina das aventuras e das alegrias das conquistas. Equilibrar é, em outras palavras, distribuir o risco.

Não se pode esperar a aprovação no CACD se o foco está disperso. Acredite: as perguntas mais frequentes que me fazem são a respeito de conciliar os estudos do CACD com o trabalho ou com o mestrado ou doutorado. São curiosamente menos frequentes aquelas sobre a conciliação com o lazer, família, namoro ou amigos, como se fossem menos importantes. Talvez sejam, porque não pagam as contas… Talvez aí esteja o problema dos candidatos que nunca passarão, por mais que tentem: querem estudar para o CACD e poder trabalhar 12 horas por dia, terminar doutorado sobre os moais da Ilha da Páscoa, acordar na hora que querem, ficar em dia com o Netflix, curtir os amigos, ter uma vida amorosa completa, ler os jornais e semanários, passar horas no Instagram, dar a atenção integral que uma família exige e ter um diazinho livre por semana, já que ninguém é de ferro. Há de haver equilíbrio, dizem!

Plenitude versus excelência

Já vi darem conselhos, pertinentes, por sinal, para que os candidatos tenham um “plano B”, uma carreira alternativa, já que passar no CACD é a exceção. E, de fato, estatisticamente, é. O custo da aprovação é mesmo altíssimo. Não vejo espaço para energia dissipada. E sim: isso significa que você será uma pessoa marcadamente unidimensional por um belo período de sua juventude, talvez nos anos em que é mais produtivo, quando poderia estar se preparando para adotar uma carreira promissora na iniciativa privada. Fora do serviço público, também, para ter sucesso, você não pode esperar ser CEO de uma grande corporação sem estar disposto a trabalhar 15 horas por dia, acordar de madrugada para analisar relatórios e abrir mão de estar em casa às 18h para jantar com sua família. Você vai trabalhar mais do que todo mundo que conhece (ou pelo menos do que todos aqueles que querem seu cargo). É isso o que fazem as pessoas que realmente criam ou realizam feitos excepcionais. Por isso, o primeiro passo para decidir se vale a pena entrar na briga do CACD é reconhecer e aceitar que há um custo para o sucesso. Esse custo inclui tempo de vida. Não há escolha certa ou errada! Nem todo mundo tem que querer sacrificar aquilo que é por aquilo que quer ser. Não há problema algum nisso! Desistir do CACD e viver bem com isso é uma atitude honrosa e admirável, que requer uma maturidade que poucos têm. Só posso falar por experiência pessoal: todo projeto ambicioso e complexo em que me envolvi não deixou de gerar uma fatura alta em absolutamente todos os outros campos de minha vida, sobretudo no familiar. Quando se está envolvido em um plano de grande complexidade, cortam-se brincadeiras, viagens, bate-papos longos e conversas com familiares distantes (e próximos).

Antes que me pergunte se estudar oito horas por dia é suficiente, adianto que conheço pelo menos cem candidatos que estão dispostos a estudar muito mais que isso, se esse for o custo da aprovação. É essa gente que te aguarda na porta da sala de prova. Por isso, é preciso ser realista em suas ambições. E ainda há que bater a sorte, presente em muitos momentos: quando cai exatamente o que você estudou, ou pelo menos não caiu tanto assim do que você sabe menos. Pensando em voz alta, se todas as provas da etapa discursiva fossem embaralhadas e recorrigidas pelos mesmos examinadores, a lista de aprovados muito provavelmente seria outra. Seu esforço será, portanto, o de estar mais preparado que a concorrência a ponto de neutralizar ao menos parte dos danos que o acaso vai lhe causar. Por outro lado, você ficará impressionado com quem você vai se tornar se procurar modificar seus métodos e melhorar suas práticas a cada dia que passa. Progredir dia a dia dentro de um sistema ou método eficiente supera o próprio cumprimento de metas em si.

Horizonte de aprovação

Há pouco a se fazer, no curto prazo (ou pelo menos no prazo em que as pessoas estão acostumadas a pensar), para superar desvantagens comparativas. Se você começou hoje e não domina os idiomas estrangeiros ou precisa trabalhar dois turnos por dia, saiba que seu tempo de preparação será maior em relação aos demais. Se não gosta de ler, se contenta em estudar seis horas por dia, não se interessa por assuntos relacionados à prova, não consegue extrair interesse das leituras que faz e envolver-se emocionalmente com os temas, só consegue aprender assistindo aulas (ou seja, não é autônomo), é inevitável que você demore mais para aprender e consequentemente passar. Por outro lado, você só vai saber se essas limitações são incontornáveis se tentar a prova. Várias vezes, se preciso, como costumam fazer os aprovados.

Não há compromisso frouxo ou espaço para ser mediano: se a aprovação já será árdua e penosa mesmo dando o melhor de si, imagine se tentar com menos! Não me furtarei de repetir mais do que vocês se cansarão em ler: o ponto mais alto de qualquer estrutura hierárquica será ocupado pelos indivíduos mais persuasivos, que se comunicam melhor. O processo de preparação e aprovação se resume a convencer a banca de que você é um dos melhores. Sua comunicação com esses examinadores se estabelece pelo texto, cujo valor está na forma como foi construída sua argumentação, na riqueza do conteúdo apresentado, na qualidade e pertinência da linguagem e do estilo empregado. Por isso, nada pode fazer mais sentido na sua preparação do que desenvolver esses atributos. Bastante óbvio, é verdade. Mas você se espantaria com o quanto as pessoas tendem a complicar as coisas! A grande questão é como fazer isso. A melhor resposta emana, como veremos, do princípio da especificidade. 

A frustração da reprovação

Tristemente, o tempo ceifará anos altamente produtivos das vidas de milhares de ceacedistas que não se preparam de uma maneira específica, isto é, orientada para o objetivo concreto, considerando todas suas peculiaridades. O sentimento de falha por não entrar na carreira dos sonhos pode ter impactos devastadores na autoestima, deixando um vazio de realização profissional e pessoal que até dói. Presencio isso diariamente no contato com estudantes de vários concursos. Muito dessa frustração ganha corpo a partir de expectativas irreais, que nós próprios criamos. É o sentir na pele do efeito Dunning-Kruger, de que tratei em outro texto. Sempre achamos, em nosso ensimesmamento, que conosco vai ser diferente. Que, se a média de aprovação é de pouco mais de quatro anos, “eu consigo passar em dois, por que não?” Nunca nos perguntamos se os métodos de estudo, técnicas de retenção ou revisão de conteúdo, as leituras que fazemos, as aulas a que assistimos ou os serviços que contratamos realmente nos preparam para sermos a pessoa em que nos queremos tornar. É muito triste ver alguém desperdiçar vida (sem artigo mesmo) por falta de reflexão, conhecimento de método e orientação.

Conversei recentemente com uma pessoa frustradíssima por não ter passado no certame de 2019. Disse que vinha se dedicando exclusivamente ao CACD há um ano e meio; que parou tudo só para isso e, diante do fracasso na que foi sua primeira tentativa séria, pensou em desistir. Minha primeira reação foi me lembrar da média do tempo de aprovação, que é de quatro anos e meio de estudos. Veja só: estamos falando da média dos bem-sucedidos! Para cada candidato aprovado com apenas dois anos de dedicação, há outro que precisou de sete! Portanto, a frustração é quase sempre o fruto de expectativas descalibradas.

Expectativas e metas realistas 

Por tudo isso, apresento, a seguir, o que acredito que seriam expectativas reais de quem quer passar. De maneira mais objetiva, esses tópicos poderiam ser vistos como metas genéricas ou habilidades desejáveis. Para quase todos eles, é interessante criar índices de controle e verificação. Outros merecem ser fracionados em tarefas específicas. Por isso, aproveitarei para dar sugestões de como acompanhar e controlar essas metas (ou melhor, habilidades quantificáveis). Sendo assim, o candidato verdadeiramente competitivo é aquele que já deu conta de:

Estudar as principais fontes bibliográficas para a prova. Aprender o conteúdo de cada fonte de estudos é uma meta em si. Tenha uma lista e curta o momento de riscar cada livro dela. Não adianta tentar alimentar a ilusão de que basta a mera leitura (com ou sem fichamento) do livro. Ele pode até ser cortado da lista, mas ainda haverá outros objetivos a cumprir. É possível que um livro tenha que ser relido tantas vezes quanto necessário para garantir a absorção adequada de seu conteúdo. Lembre-se, com duplo sentido, que método bate meta.

Quantificar a profundidade de seu domínio sobre todos os temas constantes do edital. Muito mais importante do que meramente marcar os temas que já estudou. Recomendo usar critérios mais objetivos: seu índice de acertos de questões relacionadas com cada tema (1ª fase) e a pontuação recebida pelos textos que escreveu (com foco na 2ª fase). Idealmente, controla-se o desempenho com uma porcentagem. Por exemplo: Processo de independência: 60%. Priorize o estudo dos temas com índice de acerto mais baixo;

Desenvolver a habilidade de discorrer de maneira interessante, bem construída e rica em conteúdo sobre qualquer assunto que lhe seja apresentado, de surpresa, improvisadamente e sob pressão de tempo. A melhor forma de desenvolver essa aptidão é escolher, aleatória e periodicamente, uma questão discursiva de uma prova anterior e respondê-la sem revisar o conteúdo antes. Depois de escrever o melhor texto possível, releia suas anotações sobre o assunto e reflita sobre o que faltou para conectar o que você achava que sabia (o que estudou e anotou) com o que conseguiu produzir. Se eu fosse adotar esse método, faria uma questão dessa natureza por quinzena. Perto da prova, uma por dia;

Ter algumas redações corrigidas nos moldes rigorosos de prova, obtendo pontuação aproximada suficiente para aprovação. Acredito que um candidato que tenha dez redações bem pontuadas por um professor reconhecidamente competente pode sentir-se seguro de que está pronto para a briga. Não seria um péssima ideia tratar esse número como metas em si e fazer um cafuné em si mesmo cada vez que sua tabela de controle for atualizada;

Acertar todas as questões objetivas de provas anteriores. Não é simplesmente estudar os pontos de dúvida daqueles itens que errou e deixou em branco, mas principalmente captar as sutilezas (que extrapolam o conteúdo da matéria) que o impediram de acertar a questão. Refaça as que errou ou deixou em branco até que tenha acertado todas as questões pelo menos uma vez. A certeza de estar pronto para a prova objetiva é uma aspiração fundamental, que pode ser perfeitamente quantificável (mais sobre isto no futuro). Não adianta ter a melhor capacidade de expressão do mundo se não consegue julgar os itens com os olhos de quem domina a pegada da banca. Por incrível que pareça, grande parte dos pontos disputados na primeira fase não depende do conhecimento do conteúdo, mas da habilidade de fazer provas objetivas e da perspicácia em perceber as cascas de banana, sabendo identificar as pistas que o examinador deixa quando confecciona as questões. Tudo que um membro da banca não quer é ter uma questão que propôs anulada via recurso. Por essa razão, ele usará a linguagem necessária para blindar o item de eventuais contestações. Nesse processo, obviamente, deixará pistas sutis sobre se o item é falso ou verdadeiro. O módulo 3 do programa de orientação gratuito do Grupo Ubique trata desse aspecto;

Escrever um texto sobre cada um dos assuntos que já caíram em provas anteriores, usando uma linguagem que se aproxima daquela que gostaria de apresentar à banca. Esse é objetivo mais específico e, portanto, mais trabalhoso. Elo será desenvolvida ao longo de anos. Cada texto será escrito, relido, revisado e até reescrito várias vezes. Cada nova visita é uma oportunidade de melhorar a linguagem empregada, a riqueza de conteúdo e a qualidade da argumentação. O edital, mesmo sendo um bom ponto de partida, não é forma perfeita de organizar seus estudos: ele não foi elaborado para isso, mas para proteger a banca examinadora de possíveis recursos. Já pensou nisso?

Dominar os idiomas estrangeiros com nível fluente de escrita. Não importa se você sabe falar fluentemente. Você não vai ser avaliado por isso. Nem ver Netflix com legenda em inglês é estudar corretamente! A melhor forma de melhorar seu vocabulário, sua expressividade e desenvolver-se no uso de construções gramaticais interessantes sempre será aplicar a especificidade. Escreva. Quando sentir necessidade de usar uma palavra que não conhece, busque-a e utilize-a em seu texto. O mesmo se aplica ao domínio da gramática. Veja a prática do resumo, por exemplo. Mesmo sem ter o menor conhecimento de qualquer um dos três idiomas estrangeiros, defendo que o exercício de se debruçar sobre um texto e tentar resumi-lo seria mais útil que estudar uma gramática fora de qualquer contexto e ter a esperança de conseguir aplicar aquilo corretamente caso fosse preciso. Se você lê um texto em inglês e não consegue resumi-lo, ainda está muito longe de ter alguma chance de passar. O mais natural é que o aprendizado vá ocorrendo naturalmente, à medida que você se depara com dificuldades e faz suas próprias inferências das regras gramaticais e de significados das palavras. As soluções que você descobre para as dúvidas que surgem durante esse percurso serão seus maiores ensinamentos. Fazer exercícios de gramática é apenas uma prática complementar na base da pirâmide da especificidade. O problema é achar natural que a teoria preceda sempre a prática. É como querer aprender a codificar um sistema apenas lendo um livro inteiro sobre programação. Não é assim que os melhores desenvolvedores trabalham. Eles aprendem a lidar com as complicações no momento em que surgem e, ao encontrar soluções, robustecem seu repertório de ferramentas para os próximos problemas que certamente virão. O aprendizado deveria ser assim, mas somos viciados em achar que precisamos de alguém para tudo, ou seja, não damos o devido valor às abordagens baseadas em tarefas, que dependem do nosso engajamento ativo. 

Voltando ao que seria a fluência em um idioma: é a desenvoltura no uso da língua na modalidade e na situação em que é requerido. Além disso, para o CACD, é a segurança de escrever sobre qualquer tema sem cometer erros gramaticais, aplicando o vocabulário pertinente. Acrescentam-se ainda as habilidades de traduzir e resumir. Uma forma interessante de se desenvolver nos idiomas é fugir do português (do idioma, não do Manuel) quando escrever alguns dos textos sobre os conteúdos das matérias temáticas ou traduzi-los para inglês, espanhol ou francês. Além do mais, o estímulo cognitivo adicional de escrever e ler sobre História do Brasil em outro idioma não faria mal, não é? Acredito que uma boa métrica de controle seria colecionar umas dez redações bem pontuadas em inglês, além de uns cinco resumos e umas cinco traduções em cada idioma estrangeiro;

Vir se preparando há aproximadamente quatro anos. Este ponto é extremamente importante. Esse é o tempo aproximado de estudo entre os aprovados. Antes de se questionar se você está se comparando com a média, entenda que é o estimado entre aqueles que estão no topo — os que foram aprovados. Ter a expectativa de passar com um ou dois anos de preparação é criar uma ilusão que mais provavelmente se converterá em frustração e decepção. Claro que ocorre, mas normalmente com pessoas excepcionalmente talentosas, que são poucas! Por mais que estudar da forma mais eficiente relativize o tempo exigido, as horas de contato com os assuntos, por mais toscos que sejam os métodos aplicados, contam alguma coisa no resultado final. Um candidato em iguais condições que estuda uma hora a mais que você por dia, por quaisquer que sejam as razões, em dois anos terá 730 horas acumuladas a mais. Embora haja atividades mais produtivas que outras, raramente esse esforço adicional terá sido completamente inútil, contanto que você esteja no caminho certo. Por isso, chamo a atenção para a regularidade na manutenção das horas de estudo por dia, que é um indicador básico de seu envolvimento no projeto. Uma forma útil de avaliar seu progresso — ou pelo menos seu engajamento — é verificar, no fim do dia, se você cumpriu uma carga horária adequada à complexidade do projeto e condizente tanto com suas expectativas quanto com o horizonte normal de aprovação. O ato de riscar o dia no calendário, quando cumprida a carga mínima planejada, também é um item de verificação interessante e dá ao candidato o direito a um afago;

Ter escrito alguns textos de que se orgulha, com nível próximo ou superior àqueles que são apresentados nos guias inspirados na fauna. Eles devem ter o formato de uma resposta de prova. De preferência, tenha um professor experiente e qualificado para julgá-los. Não se contente com uma reação menos enfática que um uau! O esforço de tentar escrever um texto perfeito é totalmente diferente de simplesmente produzir algo muito bom. Eu diria que pelo menos uns cinco textos desse nível em cada matéria são suficientes para lhe dar essa sensação de orgulho. A vantagem de desenvolver (e reconhecer em si) essa habilidade é que ela transbordará positivamente para tudo que você escrever, o que não é tão péssimo assim. Também é bom, ao escrever, manter em mente que seu texto será de fato lido e que, portanto, você não pode entediar o leitor. O que, para você, torna a leitura de um texto interessante? Tente emular as características desses textos. Como disse o poeta americano Robert Frost, “No tears in the writer, no tears in the reader. No surprise in the writer, no surprise in the reader”. Se você não acha seu texto interessante, como espera que alguém mais ache? 

Aproveito para abrir um parêntese um dia antes da divulgação do resultado do certame de 2019, que reforça este ponto de vista. Perceba que o primeiro colocado (provisório) geral no certame obteve a nota mais alta em apenas uma matéria. Adivinha qual foi? Por incrível que não pareça: Língua Portuguesa. Mesmo sem ter o melhor desempenho em História, PI, DIP, Economia, Geografia, o candidato que escreveu melhor sentou no topo. O primeiro lugar na prova objetiva, por sua vez, ficou apenas na 132ª colocação na fase discursiva. Escrever bem dá trabalho, mas compensa.

Criar mapas mentais ou qualquer outra forma eficiente de trabalhar a memorização para se certificar de que você vai se lembrar de tudo que escreveu, caso necessário reproduzir na prova. Esse ponto é fundamental e talvez o mais importante do texto! Por sorte, nossa memória é muito seletiva. Não é só difícil lembrar do conteúdo integral de algo que lemos, mas também de um texto que nós próprios escrevemos! Essa é a cereja do bolo: grande parte dos candidatos, depois de ler o texto sobre a especificidade e começar a criar suas próprias apostilas (ou cadernos, como gostam de dizer), se darão por satisfeitos quando as tiverem completado. Não se dão conta, entretanto, de que lhes será requerida a habilidade de conseguir reproduzir, em situação de prova, o conteúdo daquelas redações. Por esse motivo, recomendo fortemente que cada texto tenha uma versão esquemática e que ela seja tão bem memorizada a ponto de ser integralmente resgatada. Esses esquemas serão a ponte entre o melhor que você produziu ao longo de sua preparação e o que você de fato conseguiria apresentar à banca, que é o que importa, no fim das contas. A título de sugestão, crie esse diagrama paulatinamente, junto com a construção do texto, e melhore-o com o tempo, já que o conteúdo das apostilas também se refinará ao longo dos anos. Uma dica interessante é ter uma coletânea de snippets (frases feitas ou construções argumentativas interessantes) que você poderá sacar da manga (ou melhor, da memória, para não ser desclassificado) para enriquecer sua prova. Algumas dessas frases podem ser usadas indistintamente em Economia ou História, por exemplo. São como riffs de um jazzista que você reconhece em várias músicas.

Desenvolver a capacidade (não necessariamente o hábito) de escrever por mais de quatro ou cinco horas seguidas, sem sentir que sua existência está ameaçada. O ceacedista “Nutella” põe alarme para avisar quando a sessão de estudos completa 45 minutos porque ele tem que parar para descansar e evitar o estresse… Um pouco de caos faz bem! Sob qual justificativa você interromperia um momento produtivo para respeitar a arbitrariedade de uma regra que deveria ser um guia geral, mas que as pessoas tomam como se estivesse talhada em pedra? Todo mundo já viveu momentos de concentração extrema que chegaram a durar horas a fio. O pior é o seguinte: você só se dá conta de quanto os ciclos rígidos e curtos de estudos (inventados por pessoas que nem sabem que você existe) não te permitiram desenvolver uma habilidade não só útil, mas necessária durante a prova: escrever por até 5 horas seguidas, com intervalos ínfimos, que você próprio vai arbitrar! Portanto, não espere ser aprovado na primeira etapa para levar isso em conta.

Entendeu por que os aprovados demoram pelo menos quatro anos para chegar lá? Se fizer tudo isso acima e não virar diplomata, sua frustração estará justificada. Até poder dizer que está cheio, há muito arroz e feijão para comer.

A parte II deste artigo tratará sobre a hierarquia de técnicas e métodos de estudo na pirâmide da especificidade, bem como sobre o estudo de atualidades e idiomas, planejamento e organização. Também será apresentada uma seleção bibliográfica suficiente para mantê-lo ocupado por um bom período.

Criptomoedas, Blockchain e a Diplomacia

Robot playing the piano

A recente publicação do novo edital do CACD trouxe uma surpresa interessante: a inclusão do tema “Criptomoedas, blockchain e os impactos na economia mundial” na matéria Política Internacional. Trata-se de uma indicação de que o Itamaraty, em algum nível, acompanha um dos mais importantes e francamente revolucionários fenômenos a borbulhar sob a superfície. Sei que o assunto é pouco conhecido e, portanto, preparei esta resenha, que poderá ajudar alguns candidatos a diplomata.

Antecedentes

A criptografia é uma área do conhecimento humano que ocupa a interseção entre a matemática e a ciência da computação, tratando da segurança (privacidade) nas comunicações. Embora comumente ignorada, não é menos que um elemento fundamental à infraestrutura do mundo moderno. Sem a criptografia, não seria possível que se operassem na Internet quaisquer atividades sensíveis. É a tecnologia por trás do cadeado verde que aparece no seu navegador quando visita uma página pelo protocolo “https”, como páginas de bancos ou de lojas virtuais. Há uma tendência crescente de que a maioria ou até totalidade das páginas da Internet utilizem esse protocolo, o que conferirá maior privacidade à navegação.

Entenda-se que houve, nas últimas décadas, avanços extraordinários nessa disciplina, um verdadeiro espetáculo da engenhosidade humana observado apenas pelas proporcionalmente poucas pessoas qualificadas a compreendê-lo. Em torno do tema, formou-se, no início do século, um grupo conhecido como “cypherpunks”, reunindo pessoas que intuíam consequências radicais dessas novas descobertas em criptografia. Em particular, imaginavam a possibilidade de utilizá-la para criar uma espécie de dinheiro virtual, livre da intervenção estatal, ideia que apetece a libertários. No entanto, após dúzias de propostas e algumas tentativas, não se encontrava expressão que, com sucesso, realizasse essas ambições.

Assim foi até que a crise de 2008, que chegou ao limiar de provocar a falência de alguns dos maiores bancos americanos, salvos da ruína apenas pela mão visível do Banco Central americano e abalando a confiança geral no sistema financeiro internacional. À época, se entendia que seriam necessárias reformas radicais para impedir que o problema se repetisse, mas a realidade é que não houve mudanças significativas.

Para os cypherpunks, no entanto, a crise era uma prova de que sua intuição sobre o dinheiro criptográfico era verdadeira. Ao fim de 2008, um deles, sob o pseudônimo Satoshi Nakamoto, publicou o “whitepaper” do Bitcoin, intitulado “Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System”, um documento de apenas nove páginas que explicava todo o funcionamento do Bitcoin.

O sistema ali descrito entrou em operação em janeiro de 2009. Desde então, jamais parou de funcionar e deverá continuar funcionando até o fim dos tempos. Foi um marco extraordinário na história da humanidade, embora pouquíssima gente o tenha percebido à época, ou mesmo o perceba hoje — embora o sistema Bitcoin utilize, anualmente, tanta energia elétrica quanto a Colômbia.

 

 O Bitcoin

Mas o que é, afinal, o Bitcoin? Concretamente, é um arquivo de computador de um novo tipo, chamado “blockchain”, algo como “corrente de blocos”. Como um arquivo “.doc”, a blockchain pode ser lida por diversos programas (Word, OpenOffice, Google Docs etc.) de diversas formas. Para interagir com a blockchain, esses programas precisam ser compatíveis com o arquivo, seguindo as regras determinadas originalmente por Nakamoto.

Mas a blockchain do Bitcoin não existe apenas em um computador, porém em milhares de computadores, que se comunicam pela Internet. Cada mudança que se opere na blockchain — como a criação ou transferência de bitcoins — precisa ser objeto de concordância da maioria dos computadores que, ao manter uma cópia da blockchain e comunicar-se com os outros que fazem o mesmo, mantêm o Bitcoin em operação.

Quanto maior o número de computadores operando a blockchain do Bitcoin, mais seguro é o sistema, porque torna-se mais dispendioso controlar uma quantidade majoritária. Hoje, seria necessário gastar bilhões de dólares em supercomputadores e energia para que se tivesse, por algumas horas, papel majoritário na operação da blockchain do Bitcoin. Como essa é a única maneira de “hackear” o Bitcoin, esses são os termos da segurança do sistema.

O que de fato fazem todos esses computadores, efetivamente um supercomputador descentralizado pelo planeta? Calculam problemas matemáticos extremamente complexos. A cada dez minutos, operações matemáticas cada vez mais complexas são apresentadas à rede de computadores, que se ocupa de solucioná-las. Com a mesma frequência, uma quantidade de bitcoins é criada e distribuída entre os computadores que participaram do cálculo.

Ao mesmo tempo em que realizam esses cálculos, a cada solução encontrada, esses computadores disseminam entre si as transações do bitcoin — mais precisamente, o registro das operações envolve a solução das equações. Uma vez que uma operação foi registrada na blockchain, é impossível revertê-la.

Com isso, replica-se no bitcoin uma das funções básicas dos bancos: guardar o seu dinheiro e transferi-lo às contas de outras pessoas, com a sua autorização.

Há, no entanto, um diferencial importante: enquanto apenas você e seu banco podem ver suas operações bancárias, as operações da sua “carteira” (“wallet”) de Bitcoin são públicas. Quem conheça o endereço da sua carteira terá acesso a seu saldo de bitcoins, assim como a todas as suas transações passadas. Faz sentido pensar nisso como um perfil público no Facebook ou no Twitter. É possível evitar esse problema de diversas maneiras: existem formas de misturar seus bitcoins com os de outras pessoas, depois removê-los para uma nova carteira.

Ao longo dos anos, o valor de mercado de um bitcoin flutuou muito, passando por vários ciclos de impensável valorização, seguida de queda acentuada e repentina. Nesse ínterim, o próprio Bitcoin mudou de natureza. Se, originalmente, era visto como um projeto de substituto para o dinheiro, hoje é mais comumente descrito como uma reserva de valor, comparável ao ouro.

A influência do Bitcoin

Após o sucesso do Bitcoin, surgiram outros projetos semelhantes, com premissas diferentes.

Entre eles, hoje, o principal e mais avançado projeto de blockchain é o Ethereum, que concentrou os esforços e desenvolvimentos dos programadores interessados na área de criptomoedas e blockchain após a virtual paralisia do Bitcoin como “reserva de valor” sem demais ambições de avanço tecnológico. Por esse motivo, o Ethereum é também o projeto mais interessante, pelo ponto de vista das relações internacionais.

O Ethereum foi criado em 2013, quando Vitalik Buterin, cidadão russo-canadense, percebeu outros usos possíveis para o sistema blockchain, além de simplesmente registrar operações monetárias. A idéia de Buterin era criar um computador descentralizado capaz de operar programas de computador, assim como os computadores que fazem parte da rede do Bitcoin operam as transações dos usuários. Ou seja, o Ethereum tem um grande potencial aberto: ele permite que outras pessoas utilizem esse supercomputador descentralizado como quiserem.

Hoje, em toda a área de criptomoedas inaugurada pelo Bitcoin, o Ethereum é o projeto que mais atrai a atenção de programadores e empreendedores. O Ethereum almeja tornar-se uma espécie de superestrutura da Internet em que se realizariam muitas atividades econômicas do mundo moderno, por exemplo, operações de bolsa de valores e compras de imóveis. Por exemplo, é possível que o nascimento dos seus netos seja registrado na blockchain do Ethereum, tornando-se um ato jurídico válido no Brasil, verificável a qualquer momento por qualquer pessoa do planeta, sem que uma única folha de papel precisasse ser impressa, copiada, arquivada, fotografada, digitalizada, enviada por correio ou mesmo pela Internet. Bastaria mostrar uma série de números e letras que indicam a localização daquela informação na blockchain.

Na Política Internacional

Com isso, chegamos ao nosso destino final, o concurso do Itamaraty. Como é possível que um assunto tão arcano, futurista e francamente anárquico possa ter ido parar no edital do CACD? Não é um mistério tão grande: fóruns internacionais na área de finanças já começam a lidar com a tempestade que se aproxima.

O trecho abaixo foi incluído no documento final da reunião dos ministérios das finanças e presidentes de banco central dos países do G-20, em março de 2018: “We ask the FSB, in consultation with other SSBs, including CPMI and IOSCO, and FATF to report in July 2018 on their work in crypto-assets”. Primeiramente, vejamos quais são essas organizações:

  • FSB: Financial Stability Board, estabelecido pelo G-20 em 2009.
  • SSB: “standard-setting bodies”, organizações que determinam padrões internacionais.
  • CPMI: Committee on Payments and Market Infrastructure, inicialmente criado em 1990, assumiu o nome atual em 2014. Comitê constituído pelos bancos centrais dos países do G-10.
  • IOSCO: International Organization of Securities Commission, criada em 1993, inclui membros de mais de 100 países, que regulam mais de 95% do mercado de ações global.
  • FATF: Financial Action Task Force on Money Laundering, criada em 1989, para analizar a questão da lavagem de dinheiro.

Ou seja: em 2018, autoridades financeiras dos países do G-20 pediram a uma série de organizações e grupos internacionais que apresentassem, após um período de quatro meses, um relatório sobre “crypto-assets”, ou seja, cripto-bens, bens criptográficos, uma forma de dizer que são bens registrados em blockchains, como as do Bitcoin e do Ethereum.

O mesmo grupo de autoridades do G-20 se encontrou novamente em julho, de posse do relatório solicitado. Em resumo, o documento conclui que os cripto-bens não oferecem risco à estabilidade financeira global, mas levantam uma série de preocupações em termos de proteção do investidor e de seu uso em atividades ilícitas, como a lavagem de dinheiro. Em 2019, o FSB apresentou outro breve relatório da mesma natureza, sem mudanças significativas no tom e na linguagem.

“…e os impactos na economia mundial”

Até esse ponto, acredito que apresentei o assunto de maneira relativamente exaustiva para o nível em que deverá ser cobrado no concurso. No entanto, o tema, no edital, termina com a expressão “e os impactos na economia mundial”. Essa parte é um tanto intrigante porque a verdade é que seus efeitos sobre a economia mundial são, hoje, mínimos e insignificantes, enquanto a especulação quanto a seu futuro beira à ficção científica. Não imagino como essa área poderia ser cobrada no concurso, mas as considerações a seguir poderão servir de guia para suas próprias idéias sobre o assunto.

Acima, indiquei que houve uma mudança de entendimento acerca do Bitcoin, de “peer-to-peer cash” para “store of value”. Nessa visão, o Bitcoin seria uma forma de resguardar o seu dinheiro de crises econômicas e da inflação. Hipoteticamente, bancos centrais poderiam fazer o mesmo, como fazem com o ouro. Essa não é uma visão particularmente realista, na minha opinião. O preço de um bitcoin varia muito e, portanto, tem papel mais próximo ao de uma ação da bolsa de valores. Não acredito que haverá um período em que esse preço se estabilizará, não vejo motivo para que aconteça, dentro da lógica de mercado. Comprar um bitcoin pode ser um investimento extraordinariamente lucrativo ou pode ser uma ótima maneira de perder metade do seu dinheiro, dependendo de quando você o comprou e o vendeu. Há projetos que buscam tornar o Bitcoin mais útil, como a “Lightning Network”, que diminuiria as taxas de transação o bastante para que pudesse ser utilizado como moeda de compra, mas esses projetos não são os mais interessantes em desenvolvimento.

Os mais interessantes projetos, hoje, ocorrem na blockchain do Ethereum, o computador descentralizado idealizado por Vitalik Buterin. Analisemos, então, alguns desses projetos e que impacto poderiam ter sobre a economia mundial.

Na blockchain do Ethereum, publicam-se “dapps”, aplicativos descentralizados. Em geral, para utilizar esses aplicativos, você precisa pagar taxas de operação. Em muitos casos, essas taxas são pagas em uma moeda (“token”) criada pelo próprio aplicativo, cujo valor é semelhante ao de uma ação, variando de acordo com as perspectivas de sucesso daquele aplicativo. Há aplicativos que reproduzem cassinos, loterias, bancos, fóruns de discussão, bolsas de valores, mercados de apostas, jogos, entre muitos outros. A título de exemplo, existe um navegador chamado Brave (em que escrevo este artigo neste mesmo instante) que inclui, embutido, um bloqueador de propagandas. No entanto, ao utilizar o Brave, na realidade, uma parte das propagandas bloqueadas é substituída por outras. A cada vez que você vê uma dessas propagandas, você é pago um pequeno valor em BAT, o token criado pelo projeto. Você pode, então, converter seus BATs para outro token, vendê-los etc., mas pode também indicar ao navegador que esses tokens recebidos sejam então distribuídos às páginas que você visita. Como resultado, temos um navegador que inclui um modelo de sustento da própria Internet, cuja parte monetária funciona na blockchain do Ethereum.

Há, ainda, um tipo especial de token, as “stable coins”, “moedas estáveis”. É possível, de posse de uma quantidade de “ether”, a moeda central do Ethereum, utilizada para pagar pelos recursos computacionais que você solicita da rede, fazer um empréstimo (a juros) de moedas estáveis, entre as quais o DAI é o mais promissor. Esse empréstimo (“CDP debt”) é feito de maneira descentralizada, “trustless”, não exigindo que você confie em qualquer autoridade estatal, porém apenas no programa descentralizado “Maker DAO”, que, tudo indica, de fato não pode ser hackeado. De posse de uma quantidade de DAI, cujo valor é estável em relação ao dólar americano, pode-se imaginar um mundo em que você é pago em DAI e o utiliza para pagar suas contas. Que vantagem haveria nisso? Para todos os efeitos, um DAI é um dólar americano que pode ser utilizado na blockchain do Ethereum. Se você prefere investir em empreendimentos que funcionam na blockchain do Ethereum (como o próprio Maker DAO) do que na bolsa de valores, então um DAI é mais conveniente do que um dólar americano.

Da mesma forma que um dólar americano pode ser comercializado na blockchain do Ethereum, também é possível fazê-lo com ações de bolsas de valores. Para tanto, bastaria que uma quantidade de ações da Apple, por exemplo, fosse emitida como “token” na blockchain do Ethereum. A Apple poderia realizar essa operação com credibilidade, assim como qualquer instituição de confiança, mas idealmente a custódia de ações “reais” da Apple, na bolsa de valores americana, seria garantida criptograficamente e verificável na blockchain do Ethereum. Não é tão difícil de imaginar, pois os fundos indexados já funcionam assim: na bolsa brasileira, você pode comprar ações BOVA11, que correspondem a um apanhado de ações da Bovespa. Não haveria impedimento técnico para que a mesma empresa responsável pela BOVA11 emitisse também sua versão tokenizada, comercializável na blockchain do Ethereum. Algumas pessoas acreditam que, em alguns anos, as bolsas de ações migrariam para a blockchain do Ethereum — ou outra de sua criação.

O mesmo poderia ocorrer com títulos de imóveis, por exemplo, bastanto para isso que a transferência do título, na blockchain, fosse reconhecida pelo Estado do país em que o imóvel existe. Novamente, é uma situação que não encontra obstáculos técnicos, mas apenas a aquiescência estatal.

Ninguém sabe se esse projeto ambicioso se tornará realidade, nem com quais características. Só se saberá quando o assunto for acrescentado à matéria História Mundial.

 

Mapas mentais e os estudos para o CACD

Como uma única técnica pode ajudá-lo em dois dos três requisitos de sucesso na preparação para tornar-se um diplomata de carreira

 

O candidato aprovado no CACD teve que enfrentar, alguns com mais e outros com menos facilidade, pelo menos três desafios principais: 1) a assimilação de todo o conteúdo do edital que foi cobrado na prova; 2) o desenvolvimento da capacidade de expressão e demonstração do que aprendeu, de forma persuasiva, por meio do texto; e 3) a aplicação da habilidade técnica de realização de prova. 

Planejamento, organização, métodos, técnicas de estudo, conhecimento da pegada da banca, disciplina, prática de redação, resolução de questões são apenas os meios para atingir um fim maior: o desenvolvimento de sua capacidade para lidar com esses três fundamentos.

O poder dos mapas mentais — ou mind maps, como originalmente conhecidos — se manifesta principalmente no primeiro aspecto, a saber, o de assimilação do conteúdo do edital, embora tenham utilidade subsidiária ainda no momento de organização das ideias, fase integrante também do processo de produção textual.

O que são e para que servem

Um mapa mental é um diagrama que organiza, ao redor de um tema central, um conjunto de informações inter-relacionadas. A esses subtópicos, vinculam-se e/ou subordinam-se outros fragmentos de informação de menor nível hierárquico. O objetivo do mapa mental é reproduzir a forma como o conhecimento do assunto se estrutura/organiza em nossa mente e se relaciona com outros temas previamente estudados. Para se eficiente, o diagrama deve ser visualmente criativo, sintético, imprimir um toque pessoal e estruturar-se logicamente. Para isso, o autor deve transpor para a folha seu entendimento próprio do assunto e da relação dos dados entre si, com vistas a facilitar a assimilação. No processo, deve recorrer a elementos gráficos, tais como desenhos, cores, acrônimos/acrósticos e outros recursos mnemotécnicos. O resultado é uma representação visual de como seu cérebro estruturou as sinapses neurais sobre aquele tema. Depois de montado, seu valor principal será o de permitir a revisão de grande quantidade de informação em tempo reduzido. Um mapa decorado será mentalmente resgatado pelo candidato na hora da prova, e suas informações serão usadas na análise dos itens objetivos ou até na composição e organização de seus textos. Preferi o termo decorado porque entendo que todo processo de aprendizagem envolve inexoravelmente um esforço deliberado de memorização.

Tendo sido professor por vários anos antes de minha aprovação, já dominava a técnica de confecção de mapas mentais por já aplicá-los no estudo de idiomas. Fiz uso deles já no primeiro material que li: O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. Continuei empregando a técnica até o último dia de estudos, tanto para a fixação quanto para a revisão e resgate do conteúdo. Ainda guardo, com carinho, num armário, nas lembranças, na memória e no coração, quase todos os mapas que fiz. 

Mind maps na assimilação do conteúdo

Sempre recomendo a todos os candidatos que acompanho o uso dos mapas mentais como principal técnica de estudos, tanto na modalidade de resumo quanto de revisão. 

Vou comentar uma forma não-convencional de aproveitar ao máximo o poder dos mapas: cada mapa não será mero resumo de um tema estudado em um livro, nem de um capítulo de livro, caso ele aborde mais de um tema central. Para produzirem seu potencial máximo, os mapas terão como base os temas e ganharão corpo organicamente ao longo de toda a preparação, com a leitura comparada e complementar de várias fontes de estudo que abordam o tema central do mapa. A vantagem desse método é o que candidato terá, em um só lugar, um material de revisão que organiza, condensa e inter-relaciona toda a informação sobre o tema de que trata. 

À guisa de exemplo, o candidato poderia, ao terminar o capítulo sobre Primeiro Reinado do livro História do Brasil, de Boris Fausto, estruturar um mapa sobre o tema correspondente, no caso, Primeiro Reinado. Estuda-se a versão do mapa até que consiga resgatar mentalmente todo seu conteúdo. Futuramente, essa versão será incrementada com novas informações complementares estudadas em uma outra fonte de estudos, como o livro História Geral do Brasil, de Maria Yedda Linhares. E assim por diante. Após um ano de preparação, o candidato tem um mapa temático sobre o Primeiro Reinado extremamente rico em informações, pois concatena o conjunto do conhecimento sorvido de várias fontes de estudo. 

Nesse contexto, cada atualização do mapa corresponde a uma oportunidade de revisar o material, principalmente se o candidato testa sua capacidade de reconstruir o diagrama em sua mente, sempre que possível. Após várias manipulações do material, é normal que se consiga revisá-lo apenas com um correr d’olhos. Os dados não lembrados devem ser objeto de nova tentativa de fixação, seja pela combinação com outro recurso de memorização (destaque com marca-texto colorido, linha do tempo, mnemotécnica, uso de desenho ou ícone, gráfico, circulando, etc.), seja pela insistência em relembrar as partes e trechos esquecidos. O mapa deve, nesse caso, ser atualizado mais uma vez, de modo a reforçar essas associações mais frágeis. 

Os mapas mentais têm várias aplicações práticas, além daquelas já descritas para o estudo de um tema específico. No estudo de idiomas, podem condensar todas as normas gramaticais referentes a um tópico, por exemplo. Crie um mapa sobre colocação pronominal com três ramos: próclise, ênclise e mesóclise. Ao redor de cada subtópico, escreva as regras e, vinculados a cada regra, um ou mais exemplos. Os casos em que mais de uma opção é possível podem ser dispostos entre dois ramos, talvez com uma sinalização de cor diferenciada. Use a criatividade. Lembre-se: o objetivo é criar um material que vai facilitar a assimilação e a revisão do conteúdo. 

Outro uso extremamente útil no estudo dos idiomas é a criação de mapas de vocabulário temático. Aglutine, ao redor de um verbo comum em inglês, preposições com as quais formam phrasal verbs, assim como exemplos de seu uso. Frases situacionais, de função comunicativa, podem ser agrupadas sob o mesmo rótulo: EXPRESSING OPINION. Ao redor dessa etiqueta, caberiam frases como From what I gather… e I would say that… 

Citações, frases úteis e de impacto, jargão das matérias e conceitos importantes podem ser eficientemente compilados em mapas mentais, bem como estudos sobre o pensamento de um autor. Criei, por exemplo, um mapa sobre Milton Santos, em que condensei as frases e ideias mais representativas de seu pensamento e os principais conceitos que tratou em suas obras (por mais que a leitura nem de longe me agradasse). Ainda no estudo da Geografia, utilizei espaços em branco para enriquecer determinados temas com mapas cartográficos. 

Já pensou em como tratar processos e fatos históricos com a estrutura visual de um mapa mental? Imagine o estudo da Revolução Francesa: um galho pode tratar das CAUSAS, outro dos ETAPAS, outro das CONSEQUÊNCIAS, e assim por diante. Os dados cronológicos devem seguir a disposição horária em torno do conceito central, ou incorporar uma linha do tempo para ilustrar o processo.

O estudo de textos legais (lei seca, textos de tratados e acordos, estatutos de organismos internacionais, capítulos da Constituição Federal) é mais fácil com os mapas: esse tipo de documento já é estruturado de forma temática e lógica. O título de seus capítulos já indica quais seriam os melhores índices para um mapa mental. Foi assim que estudei a Carta da ONU, por exemplo.

As atualidades (ou temas do edital de Política Internacional) são ótimas para serem estudadas e organizadas em mapas temáticos, que vão ganhando corpo ao longo de toda a preparação, com a leitura regular de periódicos. Cada fato recente, desdobramento do tema, novo insight ou análise incorpora-se ao diagrama, enriquecendo-o.

Mapas mentais na primeira fase

A primeira fase requer do candidato apenas a habilidade de identificar, nos itens de questão, informações que já estudaram. Por isso, o estudo específico para a primeira fase tem foco no conhecimento passivo, ou seja, naquele que podemos reconhecer e julgar, sem, necessariamente, sermos obrigados a desenvolver a capacidade de produzir informação sobre o assunto. Parece óbvio, mas essa conceitualização tem implicações metodológicas que não podem ser ignoradas na montagem de um planejamento eficaz. Nessa etapa, os mapas cumprem a função de referência visual para os assuntos cobrados em prova. Ao deparar-se com uma questão sobre tema que estudou com o auxílio de um mapa mental, o candidato vai imediatamente julgar o item com base na imagem mental que construiu do mapa, ou melhor, das informações contidas nele (e suas inter-relações). Reforço que os mapas são a melhor técnica de estudos para dar conta da assimilação do conteúdo, que é apenas um dos pilares de uma preparação de sucesso.

Mapas mentais na segunda fase

Outra aplicação — e uma das mais úteis por contribuir para o fortalecimento do terceiro pilar, a saber, o da capacidade de comunicação e persuasão por meio do texto — que defendo para os mapas mentais é no processo de brainstorming, estruturação e organização de ideias que farão parte de uma redação. Grosso modo, cada rótulo do mapa é uma ideia central, ou tópico frasal, que corresponde, portanto, a um parágrafo do texto. Ao redor de cada conceito, agrupam-se as frases de impacto, conceitos, exemplos, jargão, brocardos, argumentos, enfim, tudo que vêm à mente relacionado àquela ideia. Uma vez montada a estrutura visual da redação, escrever fica fácil: cada ramo será transformado em um parágrafo de texto.

Nas provas de conteúdo da segunda fase, a memória dos mapas têm valor tanto no aspecto substantivo (riqueza de dados) quanto no formal da prova (organização/estruturação das ideias). Se cobrada uma questão sobre Direito Internacional dos Direitos Humanos, por exemplo, o ceacedista se esforçará para resgatar e reproduzir na folha de rascunho as informações relevantes àquela questão que estão contidas nos mapas que confeccionou ao longo de meses (ou anos, na maioria dos casos). Ele será riquíssimo, já que concatena todas informações úteis sobre Direitos Humanos coletadas em várias fontes de estudos, como os textos do professor Cançado Trindade e do embaixador José Augusto Lindgren Alves, ilustres autoridades brasileiras no assunto. Uma vez transcritos os fragmentos de informação que interessam, o candidato seleciona os mais úteis para atender às exigências da questão e se baseia neles para montar a estrutura de sua resposta, bem como sua argumentação, reflexão e análise do assunto tratado na questão.

Erros comuns

O pior erro que o candidato pode cometer é estudar por mapas elaborados por outras pessoas. Como dito, quanto mais o mapa traz elementos visuais que remetem a experiências pessoais de seu autor ou a informações que fazem sentido apenas para ele, tais como desenhos (que parecem bobos aos olhos de outras pessoas), ícones e marcações gráficas (círculos, grifos e destaques com marca-textos), mais valor eles têm.

Outra demonstração de padawanismo é o uso de aplicativos ou sistemas de criação digital de mapas mentais. Assisti a um videocurso sobre mapas mentais de um conhecido guru de concursos em que ele não só dava as aulas com base em exemplos de mapas mentais feitos no computador quanto recomendava o uso deles! A impressão que tive é que ele nunca estudou com mapas mentais ou quis evitar dizer a verdade, porque dá trabalho. As pessoas não querem ouvir que terão que se esforçar para produzir um mapa mental. Preferem o conforto do computador. Mapas digitais são péssimos por três razões principais, sendo apenas a primeira suficiente para descartá-los por completo: 1) eles perdem o elemento humano, que tanto contribui para a assimilação, pois é ele que reveste o estudo de relevância e lhe dá uma dimensão emocional; 2) sua montagem despreza a cinestesia (um sentido importante), já eles não se criam no mundo real; e 3) a disposição de suas ramificações modifica-se quando é atualizado, transfigurando-se em uma outra imagem, o que dificulta o posterior resgate e a visualização mental. A cada nova informação acrescentada, o mapa transforma-se em outra coisa que já não é mais ele mesmo!

Uma última imprecisão conceitual que merece espaço neste texto é a sinédoque de se referir aos mapas mentais como se fossem uma ampla sorte de modelos de esquemas, tabelas, anotações com recursos visuais, desenhos e outros materiais afins. Por mais que essas outras técnicas de estudo tenham muito valor, cada uma em seu contexto, nem tudo que é visual é mapa mental. O mind map é espécie — não gênero — de técnica de estudos e segue necessariamente o formato e as regras de construção descritas no início do texto.

Palavras finais: um salto de fé

Se nunca usou os mapas mentais em seus estudos, sugiro que lhes dê uma oportunidade. Atribuo minha aprovação, em grande parte, ao uso frequente e eficiente que fiz desse recurso, que combinei com outros, sempre que necessário, para melhorar minha capacidade de aprendizagem e dar conta do alto volume de assuntos cobrados nas provas. É verdade que os primeiros mapas dão trabalho e tomam tempo: eles serão provavelmente horríveis e pouco proveitosos em seu objetivo principal de facilitar a retenção do material. Com a prática e apego aos princípios de eficiência descritos nos primeiros parágrafos, tanto a qualidade visual quanto a utilidade dos mapas vai-se elevando, atingindo graus máximos de transferência para o resultado pretendido.

 

O princípio da especificidade na preparação para o CACD

Quando as técnicas de estudos atrapalham e por que devemos estudar da forma como seremos cobrados

Sérgio Mallandro, ícone do humor da década de 80, conquistou fama principalmente pelas pegadinhas que pregava e pela irreverência de jamais levar nada a sério. Em apresentação de stand-up, há uns quantos anos, Mallandro disse que não comparece mais a funerais. Nos últimos em que marcou presença, não conseguia lidar com a algazarra de ver os presentes beliscando o defunto, puxando os cabelos dele e chacoalhando o féretro, indignados: — Como é que você faz um negócio desses, Juca!?!? Levanta desse caixão! Que brincadeira sem graça: já vi que Sérgio Mallandro ‘tá’ aí! Mas o falecido nunca levantava! O humor é uma marca tão presente na personalidade dele que era mais fácil acreditar que um morto estava vivo do que conceber a remota possibilidade de ver Sérgio Mallandro sem fazer piada por alguns instantes. De tanto transpirar humor, tornaram-se indissociáveis.

Esperto como Mallandro (com “-ll”), o aspirante a diplomata quer deixar-se impregnar pelo concurso. Tornar-se aquilo que estuda. Não só respirar o conteúdo, mas transpirá-lo, sobretudo. A aprovação no concurso tem que ser um desfecho inevitável de um projeto impecável. Montar planos infalíveis, contudo, não é uma tarefa prosaica. Exige a eliminação de métodos que apenas tangenciam o objetivo traçado e a fragmentação de tarefas mais complexas em partes menores, mais palpáveis, portanto. Por outro lado, se não temos claros os objetivos, como definir métodos?

Um erro grosseiro do candidato desavisado é que ele, muitas vezes, embora ciente, mas não consciente, das características de cada etapa, põe-se a estudar incessantemente, com foco no cumprimento do edital, quase sempre seguindo um calendário de estudos elaborado por um cursinho ou mentor(a), que, por sinal, nem passou na prova. Acha que só o que importa é aprender, absorver conteúdo. Preocupa-se mais com o volume do que estuda (input) do que com a forma como se expressa sobre ele (output). Aplica técnicas de estudo (marcações no texto, resumos, mapas mentais, uso de marca-texto, SQ3R, flashcards, fichamentos, anotações, etc.) indiscriminadamente, esquivando-se da noção de que cada uma tem um contexto próprio, muito específico, em que produz seu melhor efeito. Fora dele, são praticamente inúteis.

Conquanto seja desejável o domínio de um vasto repertório de técnicas de estudos, ele dá conta de apenas uma faceta requerida para a aprovação na prova, a saber, o conhecimento do conteúdo. Infelizmente, tão somente dominar os assuntos do edital não basta. É imperativo, no CACD, o desenvolvimento da capacidade de escrever um texto dissertativo extremamente claro, interessante, expressivo, tecido com boa argumentação e rico em conteúdo. Não é à toa que, estatisticamente, o 30º colocado na primeira fase tem mais chances de ser aprovado do que o próprio primeiro lugar daquela etapa! Ao que tudo indica, o esforço despendido na memorização das notas de rodapé e a busca pela perfeição na etapa inicial roubaram valiosas horas dos exercícios de escrita (que fizeram falta nas fases subsequentes) daqueles que historicamente ocuparam o topo do ranking na primeira fase.

Por isso, peca quem estuda com ênfase desproporcionalmente alta no input. Uma preparação eficaz exige o desenvolvimento de um conjunto de habilidades (além do perfil de diplomata) que transcende o mero conhecimento dos temas cobrados. Aptidões físicas e mecânicas, inclusive. Algumas delas devem ser escaladas desde o início da temporada. Já outras têm hora certa para entrar em campo. À guisa de exemplo, cito a caligrafia (ou você acha que o examinador, por mais imparcial que seja, não vê com melhores olhos uma letra bem desenhada?); a capacidade de escrever com e sem rascunho; a calibragem do tempo de realização das questões discursivas; o preenchimento da folha de respostas da etapa objetiva; a análise de custo-benefício de deixar itens em branco na primeira fase; a apreensão da pegada da banca e de como o examinador pensa durante o processo de confecção das provas; a habilidade de decifrar os enunciados das questões; a manutenção da concentração ininterrupta por um período de 3-4 horas; a adaptação de seu ciclo circadiano ao horário da prova, etc. Poderia passar horas listando fatores alheios ao próprio conhecimento do assunto, mas que são igualmente relevantes para seu sucesso.

Como disse em outro texto (e não é ideia minha), o topo de qualquer estrutura hierárquica é ocupado pelos indivíduos que se comunicam melhor, ou seja, que conseguem persuadir aqueles de quem depende sua ascensão. Ora, no CACD, esses decisores são os membros da banca, e sua comunicação com eles se dá por meio do texto, seu instrumento de persuasão e sedução. Essa arte se aprimora (também no CACD) pela prática da escrita; pela exposição a perspectivas sofisticadas sobre os assuntos; pelo domínio de estruturas de argumentação e de ênfase; pela propriedade no uso da linguagem; pela demonstração de originalidade, de bom estilo e de capacidade analítica e expressiva. A banca não quer saber se você leu todos os livros ou se conseguiu concluir o programa interminável das aulas do cursinho. Nem se você teve dor de barriga no dia da prova, sofreu por amor ou passou sozinho o dia dos namorados. O que define sua aprovação é o produto final de seus estudos: os textos que você conseguir apresentar na hora da prova. Depois de dito parece óbvio, mas você se surpreenderia com o quanto as pessoas se confundem diante das distrações que surgem durante a preparação. É claro que tudo que foi estudado e o que você consegue produzir a partir do conhecimento adquirido são dois lados da mesma moeda. Porém, também no cara-ou-coroa, ganha quem escolhe a face certa.

Perceba que tratei apenas de requisitos exclusivos e específicos para a carreira de diplomata, dado o formato peculiar e a estrutura das provas. Cada concurso é um esporte distinto e exige a apropriação de um conjunto único de técnicas específicas. No âmbito do próprio CACD, inclusive, impõe-se uma preparação exclusiva para a primeira fase e outra muito diferente para as demais, mesmo quando as matérias e assuntos são os mesmos!

Ah, o princípio da especificidade de novo!

Para compreender melhor essas diferenças, tomemos de empréstimo o conceito do princípio da especificidade — amplamente aplicado no desenvolvimento de atletas de alto desempenho. Ele indica que a rotina de treinamento deve ser concebida e construída sob a perspectiva dos requisitos da atividade a ser desempenhada. Por exemplo, um desportista que se prepara para uma competição de levantamento de pesos verá seu cronograma de treinamento se tornar mais específico, ou seja, mais parecido com a situação real da competição, à medida que o tempo avança e o grande dia se aproxima. Nos meses que antecedem a prova, fará atividades mais genéricas, com o objetivo de evoluir em aspectos transversais da preparação: condicionamento cardiovascular, ganho de massa muscular, explosão, flexibilidade, capacidade de trabalho, desenvolvimento de musculatura auxiliar, etc. Às vésperas da competição, ele modula seus treinos e sua rotina: adapta seu ritmo circadiano àquele do dia da prova (sono e alimentação), reduz o número de exercícios, de séries e de repetições durante os treinos, pratica com o equipamento exigido e executa cada movimento de treino com o rigor técnico que será imposto pelos árbitros.

Como dito, os métodos eleitos devem ser coerentes com o objetivo desejado. Eles têm que ser específicos, acima de tudo, para permitirem melhor transferência dos benefícios do treino para o resultado final. Nada pode fazer mais sentido para o treinamento de um atleta que participará de uma disputa de salto vertical que dedicar a maior parte de seu tempo de treino ao ato de praticar aquela modalidade precisa de saltos. Qualquer método alternativo (musculação, saltos horizontais, pular corda), por mais que traga algum benefício (transferência), nunca será tão eficiente quanto o específico. Podem complementar o programa — com a ressalva de que sua utilidade não deve ser superestimada — mas nunca substituir a atividade principal, específica, portanto.

Como o esporte do aspirante a diplomata é o certame de admissão à carreira, cada etapa reclama do candidato um conjunto de habilidades precisas e até previsíveis. A primeira fase, como se sabe, avalia o conhecimento de uma quase infinidade de informações relativas ao conteúdo das matérias, além da capacidade de compreensão, interpretação passiva e julgamento de textos, dados e conceitos, em muitos sentidos comparável a um jogo dos sete erros, como bem observado por um aluno promissor. As fases discursivas (com alguma diferença entre elas na ênfase em um ou outro aspecto) exploram sua capacidade de argumentação, síntese, expressão, análise e persuasão por meio da produção textual.

Por tudo isso, a proposição de qualquer método de preparação genérico, pré-fabricado e importado de outros contextos que não sejam análogos ao de seu concurso é uma ofensa à sua inteligência e um desserviço ao seu projeto de aprovação. O genérico (ou melhor, o não específico) é ineficiente justamente porque a qualidade da apropriação de novos conhecimentos responde inexoravelmente ao contexto e ao método aplicado no aprendizado. No fim das contas, as técnicas de estudo que se esquivam o princípio da especificidade até podem ter valor em seus princípios, mas sua aplicação prática é duvidosa, quando não contraproducente.

Vale um exemplo: ouço repetirem, a torto e a direito, que aprendemos melhor ensinando, ideia derivada da Pirâmide de Aprendizagem, de William Glasser.



Embora seja uma técnica excelente, quer dizer, a melhor para o fim específico de dar aula, ela não é, contudo, a mais adequada para estudar para o CACD, nem nas fases mais avançadas do certame, já que a banca, em momento nenhum, avalia sua capacidade de dar aulas! Nesse sentido, o método de dar aulas não tem como ser melhor do que escrever sobre a matéria estudada (quando o foco é a segunda/terceira fase) ou fazer simulados objetivos (quando o foco é a primeira fase, e mesmo assim, com parâmetros muito bem definidos). Dar uma aula exige uma série de atributos que escapam dos requisitos do concurso e sequer se relacionam a eles! É a escrita de textos dissertativos, semelhantes àqueles constantes das provas, que vai permitir a prática da sofisticação dos argumentos, da escolha de cada palavra ou jargão da matéria, das ideias e da estruturação dos textos da forma precisa como serão cobrados. Estude da forma exata como será avaliado, pois, como Sérgio Mallandro, nós nos tornamos gradualmente aquilo que mais fazemos.

O teste do tempo

A verdade é que os métodos mais eficientes para cada finalidade enfrentaram desde sempre (e com sucesso) um processo de seleção natural: o rigoroso teste do tempo. Já pararam para pensar que a aquisição e a transmissão de conhecimento e sabedoria fazem parte da história desde antes da criação da escrita? Será que apenas os métodos modernos e complexos (ou melhor, aqueles inventados e popularizados por cursinhos) são eficientes? Enquanto algumas técnicas de estudo que estiveram em voga na última temporada, como uma estampa de biquíni, vão caindo no esquecimento, outras, aparentemente mais requintadas, vão sendo impostas pelo mercado, embelezadas com rótulos cheios de siglas e salpicadas de pseudociência, com evidente menosprezo ao empirismo. Você acha que as melhores mentes da história construíam seus conhecimentos e se apropriavam dos conceitos mais complexos e profundos apenas grifando e colorindo apostilas e resumos, ou decorando mapas mentais computadorizados, feitos por outras pessoas?

O problema é que, ao néscio, o intuitivo e simples é insosso. Por isso, infelizmente, o candidato se engana quando acha que seguir métodos antigos e, portanto, quase evidentes, como escrever sobre o assunto estudado (não tão somente resumir, mas construir reflexões sobre o conteúdo) está fora de moda. Ele tem a impressão de que, para aprender, deveríamos investir o tempo em atividades mais elaboradas, complexas, sofisticadas, esotéricas. Estudar não pode ser simples assim! Mas é: a complexidade é sedutora, mas traiçoeira.

Quando vejo um pretenso guru de concursos apresentando seu método de quatro letras, cuja aplicação recomenda para todos os concursos, me compadeço de quem gasta dinheiro com esse tipo de coisa. Não que o faça de má-fé. Se há ou não boas intenções, abstenho-me de especular. No andar de baixo, contudo, elas pululam. Na década de 40, a publicidade chegou a recomendar cigarros para curar dores de garganta, problemas digestivos e ansiedade.

Campanha de cigarro

O conselho de fumar para tratar males, por alguma razão, não resistiu à prova do tempo…

Em suma, quando o aluno adota a especificidade em seus métodos de estudo, até técnicas de aprendizagem consagradas (ou tidas como absolutamente verdadeiras) caem no vão da ineficiência. Vou além, e apedreje-me, se quiser: preocupar-se demais em estudar da forma como você acha que aprende com mais facilidade é uma distração! Não importa se a fonte da informação/conhecimento é um texto, vídeo, imagem ou esquema. O que você produz com base nesse material é que fará a diferença no final das contas. Esse produto, o texto, tem que ser específico e adequado aos objetivos. Você pode argumentar que aprende melhor com aulas, ouvindo o conteúdo ou fazendo exercícios. Que não gosta de ler. Ou que (acha que) não aprende escrevendo. A banca, por sua vez, não dá a mínima para como você gosta de estudar ou acha que aprende melhor. Ela vai lhe apresentar algumas questões por matéria e esperar que você produza textos interessantes, ricos em informação, articulados, expressivos e bem construídos sobre o tema indicado. Lide com isso!

Afinal, qual o melhor método de estudos para o CACD?

Depende da fase. Deixarei para comentar as duas primeiras fases em um texto futuro. O melhor vem antes: a terceira fase. Em poucas palavras — e isso é o mais importante que terei dito hoje —, nada pode ser mais eficiente do que escrever uma apostila sobre cada tema de cada matéria de terceira fase. Cada texto sobre cada tópico deve ser construído ao longo de meses com base nas leituras realizadas, reflexões, insights, aulas e conversas sobre o assunto. O material estará em elaboração contínua e possivelmente nunca alcançará uma versão final e definitiva. Toda visita ao caderno eletrônico deve ser uma oportunidade de revisão nos dois sentidos: de recapitulação do assunto e de aprimoramento/enriquecimento do texto. Essa será, aliás, a melhor forma de relembrar o conteúdo. Cada contato com o tema, por meio de nova fonte de estudos, deve ser seguido por uma revisita ao texto, sempre com vistas a melhorá-lo. Quanto pior você achar a versão anterior do texto quando a ler, melhor: é uma indicação de que seu entendimento do assunto e a qualidade de sua redação evoluíram. A linguagem utilizada deve ser a mais próxima da esperada pela banca. Use e abuse do jargão da matéria, sem se esquecer de aplicar sua capacidade analítica, sem pedantismo. Valha-se de conceitos, citações, dados e fatos importantes para montar o texto e, principalmente, acrisole-o, ao longo do tempo, como se o objetivo fosse criar uma versão dele que se pudesse destacar e transplantar para a prova. É inevitável que os primeiros textos se assemelhem mais a resumos wikipedianos (o que não é ruim, muito pelo contrário!) que a obras primas. Não se preocupe: com o amadurecimento intelectual e a exposição a várias fontes de estudo, eles ficarão bons o suficiente. Você não tem ideia do valor que essas apostilas terão depois de um ou dois anos! Perto delas, todos os livros que leu ou cursos que fez se apequenam, não só porque seus textos reunirão todas as informações necessárias sobre as matérias, mas principalmente porque serão a materialização, na forma mais concreta e palpável que se pode imaginar, do conhecimento moldado e polido no decorrer de toda sua preparação.

Guia de reprovação para o CACD

Uma indispensável coleção de receitas práticas, escrita por um diplomata, para manter-se com pompa e circunstância na condição de eterno quarto-secretário.

Ser reprovado no concurso dos sonhos é, para muitos, uma experiência das mais gratificantes. Pense nas várias vantagens de nunca deixar de ser um ceacedista: não precisa trabalhar,  é sustentado pela família; tem agenda flexível, acorda ao meio-dia sempre que quer; dispensa compromissos indesejados porque tem que estudar (desculpa preferida); faz os mesmos cursinhos, assiste às mesmas videoaulas por anos a fio ao ponto de ficar amigo dos professores; não tem a rotina de se preocupar em tomar decisões que afetem as vidas das pessoas; não tem que ficar mudando de país (com a família junto) a cada 2–4 anos, etc. Enfim, é um estilo de vida realmente recompensador, sem maiores obrigações e responsabilidades, com exceção, claro, do permanente dever sagrado de todo candidato: tenho que dar conta do material que o cursinho me mandou estudar.

O que os eternos quartos-secretários mais desejam é ficar longe dos métodos mais eficientes de aprovação, os quais, na verdade, são simples. Nessa incessante busca pela mediocridade, eles contam com um forte aliado: o mercado de cursos preparatórios para o CACD. Esses programas são, em geral, idealizados por não diplomatas, ou seja, por gurus/mentores/coaches/orientadores (chame como quiser) que nunca passaram no nosso concurso (ou mesmo em qualquer concurso). Para piorar, eles não têm nada a perder se os conselhos que lhe dão não trazem os resultados esperados ou até atrapalham seu estudo. O desavisado deixa-se envolver pela simpatia e pela boa articulação de alguns orientadores de fora da carreira, confundindo esses atributos com experiência, propriedade e legitimidade.

Esses consultores fazem o que chamamos, em um círculo íntimo, de trombetagem. O trombeteiro é aquele que quer ensinar a transar, mas é virgem; que explica de como fazer um excelente churrasco, mas é vegetariano; que dá conselhos de dieta, mas pesa 130kg; que recomenda tal ou tal investimento para ganhar dinheiro, mas tem nome sujo no SERASA; que xinga o jogador de futebol que erra pênalti, mas nunca chutou uma bola; que quer ser político, mas nunca participou de uma reunião de condomínio; enfim, que nunca fez nada excepcional na vida, mas garante que tem a fórmula do sucesso. No fim das contas, nada mais é que um bullsh*tter!

Ouvir um diplomata — um aprovado, portanto, no concurso — ou um professor de alto calibre, por outro lado, pode prejudicar muito os objetivos de correr no pelotão dos retardatários. A verdade é que a perspectiva de um diplomata sobre os assuntos do concurso será invariavelmente distinta daquela de um outsider: os temas da prova são parte de nossas vidas e de nossos cotidianos profissionais. Nós vivemos e respiramos Política Externa, Direito, Economia, História e Geografia. Direitos Humanos e negociações comerciais são, para os frequentadores diários da Casa do Barão, assuntos concretos, com relevância e sentido práticos. Mesmo aqueles que não trabalham diretamente com determinados assuntos acabam criando com eles alguma intimidade — inalcançável aos de fora —, pois tais questões fazem parte de suas conversas de corredor, encontros informais e de seu horizonte profissional, afinal, estamos sempre de olho nos próximos passos da carreira. E a técnica de redação telegráfica ou a linguagem diplomática, que só os diplomatas dominam? Já se perguntou se o estilo das melhores redações da segunda fase coincide com o das milhares de comunicações (chamadas telegramas) escritas diariamente por diplomatas?

A cada concurso que realiza, o Itamaraty procura desvelar, nas questões de suas provas, o perfil que almeja nos novos integrantes da carreira. A prova reflete o esprit de corps do Ministério, cujo entendimento foge ao alcance de um estranho, por mais bem-intencionado e informado que seja (há exceções, como alguns professores altamente especializados). Por isso, quando um diplomata lhe transmitir os pontos de vista dele sobre qualquer assunto, sejam atinentes a sua atividade profissional, sejam relativos ao concurso, recomendo fortemente que os ignore. Ele só quer seu mal, como um vampiro que quer aumentar seu clã. Não é que ele vá prever o que cai prova e destruir de vez seus planos de viver de mesada. A prova é imprevisível, por mais que lhe digam o contrário! O pior mal que ele pode lhe causar é apresentar-lhe uma perspectiva analítica privilegiada e um refinamento na priorização de determinados aspectos sobre os temas cobrados que só podem emanar de quem pertence à carreira. Tudo isso enriquece o texto da terceira fase muito mais do que você gostaria. Estou certo de que, para ir mal na prova, é muito melhor contratar os serviços de preparação concebidos por não diplomatas, como a maioria dos programas de coaching e mentoria e cursos extensivos em vídeo e presenciais (que chegam a durar mais de mil horas, somadas todas as matérias, e procuram esgotar todos os temas do edital, como se você não tivesse, além de tudo, uma enorme carga de leitura e escrita para cumprir). Mas cuidado: há inimigos infiltrados! De vez em quando, onde menos se espera, você vai esbarrar em alguns professores brilhantes, uma minoria que, apesar de não serem da carreira, podem frustrar seus planos resolutos de fracassar no CACD.

Com isso tudo em mente, vou fingir por um instante que não sou diplomata e propor, a seguir, para seu (e meu) regozijo, uma série de receitas práticas (que evitei até numerar para não passar a falsa impressão de que se esgotam neste texto) para garantir um fiasco arrasador no concurso. Alerto que o texto é longo: para melhor degustação, sugiro a leitura e a reflexão correspondente por partes.

Assista a todas as aulas do cursinho que comprou

Já ouvi dizer que as pessoas de sucesso leem bastante. Deve ser mentira, porque os cursinhos preferem recomendar cursos audiovisuais de longuíssima duração. Não importa se seu curso só de Geografia tem mais de 100 horas. A prioridade de sua vida deve ser assistir a todas as aulas, afinal, você pagou caro por cada minuto. O nível das aulas é irrelevante: os professores normalmente têm em mente o aluno médio, ou seja, baixam muito o nível da aula para que todos consigam acompanhar, o que é ótimo para ter conhecimentos apenas iguais aos da média dos concorrentes. Não faria o menor sentido se aplicasse essas cento e tantas horas no estudo de obras avançadas ou em vídeos de alto nível que tratam de nuances de temas específicos, que têm muito mais a ensinar.

Você acredita que aprenderia mais se aplicasse essas horas estudando oito ou dez livros, complementados por vídeos temáticos, ou se assistisse confortavelmente no sofá a um curso extensivo e generalista, de nível extremamente democrático — e, portanto, básico e superficial —, sobre a matéria?

Antes de responder, lembre-se: passar não é sua prioridade.

Fuja de livros e vídeos de nível avançado

Para ser coerente com o item anterior, prefira obras e aulas fáceis de entender. Por mais que o contato com material de estudo avançado (obras ou vídeos) provoque uma reflexão aprofundada sobre a matéria e permita que você domine o conhecimento com mais propriedade, as obras simples dão a (muitas vezes falta)sensação de que você entendeu o assunto. Para seu objetivo, que não é passar, permanecer na zona de conforto é uma tática mais efetiva do que enfrentar  os desafios do estudo árduo. Já pensou que, em tudo na vida, valorizamos menos o que é fácil ou vem de graça? Pois é: o cérebro também dá mais valor àquilo que teve que se esforçar para conquistar.

Contrate um programa de coaching/mentoria com um guru que não seja diplomata

O melhor conselho que alguém que ganhou muito dinheiro com investimentos pode dar é simplérrimo: mostrar seu portfólio. Na mesma linha de raciocínio, aquele trombeteiro virgem dificilmente será seu melhor conselheiro sexual.

Para assegurar sua reprovação, nada melhor do que seguir à risca as orientações de quem nunca passou no concurso para diplomata (ou mesmo em nenhum outro), em temas que vão desde o planejamento até a escolha dos métodos, das técnicas e dos sistemas de organização dos estudos. Melhor ainda se ele (ou ela) não tiver nada a perder se você não passar, como quase sempre é o caso.

Eles é que são os reais especialistas em reprovação: a maioria esmagadora de seus alunos tombam ou, dito de maneira mais apropriada, pagam para quebrar a cara. Você possivelmente nunca parou para pensar nisso, mas são os repetentes que sustentam o mercado de cursinhos. Os azarados que acabam passando são apenas um efeito colateral, a ser evitado a todo custo. Muito provavelmente, mesmo sem a ajuda dos trombeteiros, a maior parte deles passaria de qualquer jeito.

Ignore as estatísticas: preocupe-se primeiro em passar na primeira fase.

Faz sentido para você ouvir que quem estuda demais não tem tempo de se preparar para o concurso? E se eu lhe contasse que, estatisticamente, o quinto colocado na primeira fase tem quase o dobro de chances de ser aprovado no concurso que o primeiro, você acreditaria? Pois é:

Os candidatos que ficaram em primeiro lugar na etapa inicial foram aprovados em apenas 5 dos 17 certames realizados desde 2003. Em contraste, os quintos lugares passaram em 8 deles!

Você ficou surpreso, não foi? Eu não! Já esperava um resultado semelhante quando encomendei o estudo estatístico, que tentarei aprofundar algum dia, quem sabe…

A aprovação no CACD requer um conjunto de habilidades que são específicas a cada fase do certame. Por isso, a adoção de métodos genéricos, por melhor que possam aparentar, não funciona se não forem adaptados às particularidades do CACD. O domínio do conteúdo, ou seja, a aquisição de conhecimento bruto, é apenas um dos pilares do sucesso. O mais importante, no fim das contas, como explorarei mais na frente, é o desenvolvimento da capacidade analítica ativa e da expressão do conhecimento adquirido por meio do texto, o que se julga apenas nas fases posteriores do concurso.

O que importa o seguinte: para ser primeiro colocado na primeira etapa (ou ficar no topo), é preciso se desenvolver em habilidades muito específicas como julgar itens, captar pegadinhas e principalmente memorizar uma quantidade de informação tão grande que talvez nem contribua tanto para as fases subsequentes. A reprovação futura, como ocorre em quase 70% dos casos, se dá por causas até previsíveis: os candidatos que ficam na elite da primeira fase desviam parte do tempo de estudo dirigido às segunda e terceira fases (de escrita, portanto) para a leitura de mais e mais conteúdo do edital, preocupado em responder todos os itens cobrados na primeira fase. Esquece que alguns (ou muitos) itens foram criados justamente para não serem respondidos! É a história da lebre e da tartaruga: uma se concentra na largada; a outra, na chegada. Por isso, o candidato cunicular, que nem sempre passa, não obstante sua ótima performance na largada, vê o TPS como prioridade absoluta e negligencia a prática frequente da escrita e da resolução de questões discursivas!

Acredite que só passará na prova se tiver acesso aos serviços mais caros

Ora, não é incomum ver cursos preparatórios se gabando de seus índices de aprovação. Existe uma estratégia simples (e válida) para inflar os números positivos: dão-se bolsas de estudo aos aprovados na(s) primeira(s) fase(s) ou àqueles com maiores chances de passar (estamos falando de um conjunto reduzido de candidatos, cuja maioria, muito provavelmente, passaria sem a ajuda de cursinhos). Se você quisesse, de fato, ser aprovado no concurso — o que não é, de modo algum, o caso — escolheria apenas os serviços que valem o que você paga. Não aceitaria contratar um programa personalizado (que é o tipo mais caro, como coaching ou correção de questões/redação) que não previsse garantia de devolução integral em caso de insatisfação. Seria extremamente criterioso na escolha da pessoa (ou curso) a quem entregará o planejamento de seus sonhos. Mas nada disso importa: para você, nada é melhor do que a vida de concurseiro profissional.

Distribua suas horas de estudo entre as matérias de acordo apenas com o peso (ou número de questões) de cada uma no concurso

O candidato fadado ao fracasso estuda sem maiores preocupações com o planejamento dos estudos. Preocupa-se mais com a quantidade do que com a qualidade. Despreza  variáveis importantes no momento de fazer a distribuição das horas de estudo entre as matérias, como o nível de conhecimento que tem em cada matéria, suas facilidades de aprendizagem, o volume de conteúdo por disciplina, sua bagagem prévia, etc. De qualquer modo, basear-se no número de questões por disciplina já é melhor que nada: na ausência de soluções comprovadamente mais eficientes, a mais simples normalmente já é a melhor.

Faça simulados desde o início de sua preparação, mesmo se iniciante

As celebridades da área de concursos mandam fazer questões de prova desde o começo da preparação. Como sou do contra, considero essa prática sensacional se o objetivo é a ruína. Por isso, para falhar, siga indiscriminadamente as dicas dessas figuras e ignore as funções principais dos simulados, quais sejam: 1) revelar temas específicos (do edital) em que o candidato tem lacunas de conhecimento; 2) impregnar no candidato a pegada da banca e 3) avaliar o nível de competitividade às vésperas da prova. Quanto mais propositivo o resultado, mais eficiente. Quando abusamos da realização de questões de provas anteriores desde o início da preparação, desobedecemos ao princípio da especificidade, tão caro aos atletas de elite. Segundo esse princípio, há momentos estratégicos para a aplicação de cada tipo de atividade. Um simulado extenso de diagnóstico, no início de um macrociclo de estudos ou logo após uma reprovação, tem valor inestimável na montagem do novo ciclo de estudos. Por outro lado, dizem por aí que exercícios objetivos (C/E ou de múltipla escolha) têm papel fundamental na fixação do conteúdo. Digo, sem hesitar, que há formas muito mais eficientes de se aprender o assunto. O valor dos exercícios, para essa finalidade, é superestimado. 

Os exercícios objetivos e questões [objetivas] de provas passadas cumprem melhor a função de testar e de treinar do que de sedimentar conhecimento. — Ah, mas comigo é diferente! Aprendo melhor fazendo exercícios! Se essa foi sua reação, não mais discutirei, meu bom Padawan. Não é sua culpa: quem só tem martelo pensa que tudo é prego. Aprender é reunir as ferramentas para resolver um problema específico que se nos será imposto. No seu caso, esse problema é a aprovação no CACD. E se você reuniu as ferramentas erradas? Em resumo: tanto os simulados quanto as questões devem ser aplicados em situações estratégicas. E sim: há momentos em que fazê-los é nada mais que perda de tempo. Péssima dica para nosso quarto-secretário Mun-Ha!

Adie o início do estudo dos idiomas estrangeiros até ter uma base sólida em outras matérias

Já disse em outro texto que tem sido cada vez mais difícil obter a aprovação no concurso, por ter se elevado bastante o nível das respostas na terceira etapa.

O CACD não difere de uma guerra: é a disputa pelo ápice de uma estrutura hierárquica. Em todos os campos da atividade humana, o topo é dominado pelos que se comunicam de forma mais eficiente, o que quer que signifique comunicar naquele contexto específico.

No concurso para diplomata, essa comunicação se estabelece pelo texto. Para a aprovação, não basta saber o assunto: tem que saber tratá-lo na prova da forma mais persuasiva e sedutora possível aos olhos dos examinadores, que são os destinatários de sua mensagem. Passar no CACD é, em grande medida, como em toda disputa intelectual, decorrência de um exercício bem-sucedido de persuasão. Nesse contexto, os idiomas deixam de desempenhar papel coadjuvante na composição da nota final e passam a ser critério crucial de diferenciação. Seguindo sua regra de ouro de enganar-se com facilidades e de evitar dificuldades, o fracassado de carteirinha negligencia o domínio das línguas e acha que priorizar os estudos de História do Brasil, História Geral ou de outras matérias que domina mais facilmente é o caminho que conduz à aprovação. Desconsidera que a aquisição de um vocabulário extenso em todos os idiomas estrangeiros requer muito tempo de exposição a eles (de forma espaçada, de preferência), carga de leitura volumosa e prática ainda maior de redação e tradução. Esquece que a gramática se aprende no próprio exercício de escrita, quando se cotejam os erros cometidos com as normas vigentes, revestindo o conhecimento recém-adquirido de contexto, relevância e significado. Prefira, portanto, perder seu tempo assistindo a entrevistas de trombeteiros dizendo que o nível nos idiomas desejado na prova não precisa ser fluente. A ignorância é uma bênção!

Faça um curso de inglês com um professor que fala inglês na aula!

O candidato incauto prefere aulas de inglês que são dadas naquele idioma, já que se não importa com o fato de que a introdução da modalidade oral da língua, além de não ser objeto do concurso, atua como vetor de distrações, ou seja, desvia-nos do foco da aula, qual seja, a gramática, a ampliação de vocabulário, técnica de leitura ou escrita. Candidato sem foco não passa. Simples assim. Quem quer passar elimina as distrações. Como você acha que a introdução de elementos de confusão poderia afetar a qualidade de seu aprendizado? Se o candidato não é perfeitamente fluente na compreensão auditiva ou há alguma chance de perda de clareza na comunicação pelo uso do inglês na aula, a chance de perder conteúdo — e reprovar, por conseguinte — aumenta. Bom para você, que não quer passar!

Conforme-se quando disserem que você não precisa ser fluente nos idiomas estrangeiros

A fluência é a naturalidade no uso. Ela se aplica tanto à modalidade oral (fala e compreensão auditiva, não cobradas no concurso), quanto à escrita (seja ativa ou passiva, ou seja, redação e leitura/interpretação, respectivamente) do idioma. Antevendo um campo de batalha cheio de combatentes brutais, muitos dos quais alfabetizados e pós-graduados em idiomas estrangeiros, você não vai querer investir na fluência escrita para se preparar melhor para a peleja, não é mesmo? Contente-se em ficar no atoleiro da mediocridade. Não se preocupe com seu inglês insípido, afinal de contas, andam dizendo por aí que os idiomas do CACD não exigem nível tão alto assim. Aprender superficialmente três idiomas estrangeiros em dois anos é facílimo, qualquer um pode, não é?

Siga um calendário fixo de revisões, de preferência calcado na Teoria da Curva do Esquecimento

Segundo os métodos de revisão fundamentados na Teoria da Curva do Esquecimento, o aluno deve cumprir um calendário com periodicidade pré-determinada de sessões de revisão após o estudo inicial dos assuntos. Tais métodos são excelentes para decorar dados desconexos justamente por desconsiderar a dimensão emocional e o contexto da aprendizagem. Ao forçar-se a seguir um calendário fixo, complexo e de difícil elaboração (revisão a cada 24h, 48h, uma semana, um mês, etc.), o cumprimento rigoroso desse cronograma torna-se um fim em si mesmo, sempre em detrimento da produtividade e da qualidade dos estudos. Você se mantém, ademais, cronicamente tomado por aquela deliciosa sensação de estresse por nunca conseguir alcançar as metas programadas. Não avança no edital, não revisa os infindáveis fichamentos previstos para o dia, não consegue produzir os mapas mentais com o esmero que gostaria. Materiais de revisão vão-se acumulando de uma forma praticamente impossível de acompanhar. Para flertar com o insucesso, desconsidere métodos mais simples e intuitivos: já parou para pensar que em diversos assuntos você já pode ter consolidado conhecimento suficiente para ser aprovado sem precisar de revisões laboriosas? Se você se vir, de fato, em tal situação, é porque provavelmente está conseguindo estabelecer correlações entre informações que vão sendo adquiridas ao longo de seus estudos com conhecimentos prévios — numa construção contínua de saber —, exercício que lhes confere relevância prática e os reveste de significado, intimidade e até de uma ligação emocional.

Por que será que ninguém esquece o primeiro beijo? Quantas vezes ele tem que ser repetido para não ser esquecido? E aquela música que não ouvimos há 15 anos mas de que não esquecemos uma sílaba sequer?

Ignore este princípio e o tropeço será garantido!

Prefira sempre avançar no edital a assimilar com propriedade o conteúdo estudado

O quarto-secretário por vocação preocupa-se mais em avançar no edital, sem freios, do que em ler com atenção, refletir e produzir textos que exprimem sua visão e ponderações sobre o que tem estudado. Justifica a pressa, a qual não raro descamba para o desespero ou o nervosismo exacerbado, pelo volume quase infinito de informação que tem para cobrir em tão pouco tempo. Outra abordagem consiste em rodar o edital a fim de apenas se familiarizar com os assuntos, para, depois, num segundo momento, dedicar-se ao estudo mais detalhado. Muitas vezes funciona, afinal, muitos métodos produzem bons resultados quando levados a cabo de forma coerente e inteligente. Mas não é o que você quer. Para prolongar o feliz convívio domiciliar que tem hoje, você precisa dar pouca importância à qualidade do que aprende. O método Feynman é péssimo para você. Ele propugna que, para nos apropriarmos do assunto, devemos desenvolver nossa capacidade de explicar e ensinar o que aprendemos da forma mais simples e pessoal possível. Isso depende, obviamente, de ter entendido bem a matéria. Felizmente, as atividades de esmiuçar o texto, escrever sobre ele e explicar o que estudamos tomam muito tempo, e há todas as aulas do cursinho, que parecem o catálogo inteiro de séries do Netflix, para correr atrás! Portanto, não faça isso se ainda não estiver convencido de que deseja ser diplomata! Continue lendo ao léu, sem foco e com açodamento. Para o concurseiro profissional, o  mais importante é esgotar o quanto antes o edital e as aulas do cursinho, que parecem não ter fim, certo?

Escreva pouco

Ouvimos de vários autores brilhantes que aprender a escrever é aprender a pensar. Felizmente, para você, que não quer passar, escrever rouba tempo de estudo de outras atividades. Como o tempo é seu principal recurso, tem a desculpa perfeita para não escrever. Prefira fazer marcações no texto (com marca-texto ou lápis), mapas mentais e escrever resumos e fichamentos. Essas atividades — por mais que tenham seu valor na aquisição e resgate de conteúdo —, quando empregadas (e abusadas) de forma passiva, mecânica e descontextualizada, servem mais para passar a ilusão de que se está construindo conhecimento do que para proporcionar aprendizado real.

Se você passa muito tempo escrevendo textos densos, articulados, expressivos e opinativos, desenvolvendo sua capacidade de argumentação e persuasão, buscando sempre promover a inter-relação dos conteúdos novos com os antigos, corre o sério risco de largar anos-luz à frente da concorrência e, pasme, ser aprovado. Isso nunca!

 

Estude todas as matérias ao mesmo tempo desde o início da preparação

É uma estratégia ótima para começar o projeto com o pé esquerdo. São muitas matérias, afinal! Organizando bem, dá para estudar duas horas de cada uma delas por semana! Em um mês, terá estudado oito ou dez horas de francês. Mais do que suficiente para ser fluente em um ano, não é? É irrelevante se algumas matérias dependem de um sólido conhecimento de outras para serem compreendidas com mais facilidade. Outras são, digamos, mais independentes e têm menos conteúdo. Essas matérias deveriam, caso o estudante contasse com eficiente planejamento estratégico de estudos, esperar um pouco mais para entrar em contexto ou até terem ajustada a quantidade de horas totais de estudo. Um plano mal feito ignora a confusão gerada pelo excessivo número de matérias concomitantes. Além disso, deve ser muito relaxante estudar cinco ou seis disciplinas com as quais não teve contato desde o ensino médio (e com outras nunca) já no começo da preparação, não acha?

Privilegie a motivação sobre a disciplina

O ceacedista matusalém precisa de alguém ao seu lado lembrando o tempo todo o quanto aquele projeto é importante para ele. A responsabilidade pela realização de seu sonho, mesmo sendo pessoal e intransferível, cabe sempre a outrem: as noções de vocação e de realização pessoal e profissional são entendidas como extrínsecas. Você não vai querer desenvolver um dos atributos mais valiosos para o sucesso na vida: a aplicação da disciplina. Não importa quantos livros ainda há para estudar ou quantos textos restam a escrever. Quando estiver cansado ou desanimado, esqueça os livros por um instante e procure recobrar o ânimo de outras maneiras. Prefira acreditar que essas oito horas perdidas não farão falta, afinal, a motivação controla a disciplina: quem tem mais vontade de emagrecer perde peso mais facilmente do que aquele adere melhor à dieta, não é mesmo?

O estudante ineficiente passa horas falando do planejamento que nunca começou; de como gosta de estudar; discutindo se vale a pena comprar uns livros, que nunca lerá (sim, comprar livros nos dá a falsa sensação de engajamento nos estudos: fulana tem 100 livros, deve estar muito preparada!); falando excessivamente sobre aspectos da carreira que só fazem sentido depois de cinco anos após a aprovação; comentando falas polêmicas do chanceler com pouquíssima probabilidade de serem objetos de prova; interessando-se e acompanhando assuntos até relacionados com a diplomacia, mas sem relevância no concurso, etc. Essa postura divagadora e delirante, pouco pragmática, parece ser mais sintoma justamente de uma motivação exacerbada, que se transfigurou em ansiedade. Ela atuará, ao fim e ao cabo, como uma distração em prejuízo da aplicação da disciplina, ou seja, do cumprimento de suas responsabilidades. Mas o importante é sonhar, como dizia a Rainha dos Baixinhos!

Não perca tempo com mapas mentais

Eles tomam tempo, e é necessário ter ou desenvolver alguma (não muita) habilidade artística para criá-los. O domínio (ou fluência) da técnica exige algum esforço de aprendizagem. Em compensação, a elaboração dos mapas torna-se bem mais rápida e sofisticada com a prática. Para produzirem seu efeito mais nocivo de ajudar a passar no CACD, os mapas mentais devem ser a representação visual e pessoal de como os assuntos estão organizados e inter-relacionados na mente. Quanto mais seus mapas estiverem impregnados de personalidade, mais sentido eles farão para você e mais instantâneo será o resgate mental e a reconstrução de seu conteúdo na hora de responder uma questão da prova. Tenho convicção de que minha aprovação decorreu, em grande medida, do uso recorrente dessa valiosa ferramenta de estudo. Você não quer isso. Asseguro, com conhecimento de causa, que os mapas mentais são uma das ferramentas mais potentes para dar conta de um dos principais pilares para a aprovação: o domínio do conteúdo do edital. Graças ao uso regular dos mapas, consegui produzir respostas, baseadas neles, que receberam nota máxima na terceira fase.

Por último, os mapas são valiosos por serem um material de rápida revisão, excelentes também para as vésperas de qualquer etapa (inclusive as objetivas), período em que produzem ótimo efeito se usados com o objetivo de identificar lacunas de aprendizagem em alguns pontos específicos da matéria e testar sua facilidade de reprodução do mapa: muito útil no momento da prova. Evite-os, portanto!

Prefira estudar por mapas mentais feitos por outras pessoas, ou pior, produzidos profissionalmente por meio sistema de computador

O próprio processo de confecção do mapa cumpre função importante na retenção de seu conteúdo. Seu valor está no trabalho de desenhar cada linha; em pensar na melhor posição para cada conceito ou item; em refletir sobre a estrutura da rede de associações entre os temas, na taxonomia dos assuntos; na escolha de cores, dos recursos visuais complementares (gráficos, desenhos, ícones); e principalmente na intimidade que criamos com cada um deles, já que refletem, de certo modo, nossa personalidade e a forma como nos deixamos impregnar pelo assunto estudado, como denotado anteriormente.

Esses esquemas visuais (mapas mentais ou diagramas) quando formatados em um sistema de computador profissional (ou seja, quando são bonitos demais para terem sido feitos pelo engenho humano, como a foto do hambúrguer do McDonald’s), por mais que pareçam úteis pela apresentação sofisticada e pretensamente didática, são interpretados pelo cérebro como apenas mais um estímulo visual no meio do bombardeio de imagens banais e irrelevantes que recebemos diariamente, por todos os lados.

São tratados, pelo filtro da memória, vistos pelo prisma da irrelevância, como as dezenas de anúncios de propaganda, posts de Instagram, fotos de notícias e tudo mais com que nos deparamos diariamente. Tendem, portanto, a ser ignorados e até esquecidos. Por mais que você se empenhe para decorá-los (e sim, todo processo de aprendizagem envolve um esforço consciente de memorização), será um processo mais artificial e menos orgânico do que preferisse memorizar seus próprios diagramas. Faz sentido?

Considere, por exemplo, a seguinte situação: você quer montar um móvel que comprou desmontado nas Casas Bahia e tem em mãos um manual de montagem descritivo, sem imagens de apoio, e um outro esquema visual de montagem. Você resolve, para treinar a técnica de estudos, ignorar o guia visual que recebeu e criar à mão seu próprio diagrama de montagem, com base na versão de texto da explicação. Você acredita que conseguiria resgatar mentalmente de maneira mais fiel, no futuro, o diagrama visual que você mesmo fez ou o outro, também visual, que acompanha o produto — feito, portanto, por outra pessoa e por computador?  

Esses mapas prontos, quando elaborados por outra pessoa e/ou em computador, atendem melhor, portanto, o cumprimento de tarefas pontuais, que não requerem a perenidade das informações na memória. Se usados com a finalidade de retenção de conteúdo na memória de longo prazo, pouco farão além de dar a falsa impressão de aprendizado, como muitas outras técnicas de estudo comumente recomendadas e citadas em outro subtópico deste manual. O estudo para o CACD exige métodos mais eficientes que esses. Mapas computadorizados e/ou emanados de punhos alheios são bons, portanto, para você montar uma estante comprada no Ikea, mas não para lidar com a complexidade dos assuntos abordados no CACD. Confiar a qualidade de sua aprendizagem a esse tipo de material é ainda pior (ou melhor, para você, que quer reprovar) do que não usar mapas mentais.

A venda desse tipo de produto já pronto faz sentido do ponto de vista do empresário de cursinho, pois a oferta encontra a demanda: — Ora, mapas mentais tomam tempo; os alunos não querem ter o trabalho de fazê-los; os mapas à mão são geralmente pouco melhores que garranchos; mapas digitais impressionam pelo visual! Vamos então vender os mapas prontos, feitos no computador! Vamos pedir aos professores para montá-los! Por mais bem-intencionada que a empresa ou pessoa que fez o mapa esteja ao tentar vendê-lo para você, ao comprá-lo, você está entrando para o grupo dos prováveis derrotados, que estimo ser mais de 99% dos candidatos. Se tiver oportunidade, pergunte aos aprovados se compravam seus mind maps prontos. Eu apostaria em um quase unânime não! Nem todos vendendo mapas prontos ou computadorizados são gatunos de olho no seu dinheiro, embora os haja aos montes, eles apenas não têm o conhecimento pedagógico necessário para dar-se conta da ineficiência do método. Perdoai-os, portanto, pois apenas não sabem o que fazem! Sendo assim, ignore tudo isso e dê-lhes um voto de confiança: o melhor abraço é o do afogado, que carrega você junto para o fundo do mar!

Leia as notícias internacionais diariamente, pelo tempo que for necessário, mesmo se prejudicar seu tempo de estudo

As estatísticas mostram que as questões sobre atualidades ou acontecimentos recentes estão longe de ser a maioria nas provas de Política Internacional e Geografia. São aquelas que vemos nos jornais todos os dias e achamos que são relevantes para o concurso. É óbvio que o candidato que não quer passar, como você, meu eterno quase colega, não considera os dados estatísticos e distribui de modo desproporcional seu foco e tempo entre a leitura de periódicos (que compreendem cerca de 5-15% dos assuntos que costumam cair na prova) e o estudo de outros temas (correspondentes a 85-95% dos conteúdos das últimas provas). Relaxe, deixe isso pra lá, volte para seus jornais do dia. Seus verdadeiros colegas, os do cursinho, ficarão impressionadíssimos. Assim, você não só continua sabotando seu próprio projeto, mas também ludibria os demais quartos-secretários. Como eles deverão fazer o mesmo, tem-se uma espécie de ilusão coletiva que se retroalimenta. Também é muito útil para pavonear-se diante de familiares e amigos. Não faltará companhia para comemorar a almejada reprovação.

A mera popularização de plataformas online de compilação de notícias —  inegavelmente úteis, quando usadas corretamente, ou seja, com a devida parcimônia — acaba reforçando esse entendimento de que o foco da preparação deve ser em notícias, pelas mesmas razões que os candidatos tendem a impor-se o cumprimento do cronograma dos cursinhos, em prejuízo de seu próprio ritmo de estudos e de sua etapa de maturidade intelectual. Se todo mundo lê a compilação de 30 matérias por dia de tal site ou se o cursinho diz que tenho que matar a parte de Colônia em determinada semana, melhor que eu o faça, ou ficarei atrasado em relação às notícias, às aulas ou ao programa deles! Se não aprendi bem, pouco importa, depois eu aprendo! Só que esse depois nunca chega. Melhor para você, que verá seus sobrinhos crescerem perto de você.

Acompanhe de perto, nos periódicos, a política interna do Brasil

Política interna não cai na prova, mas é muito legal estar informado e demonstrar para a família e os amigos que, como futuro-eterno-quase-diplomata, você sabe conversar sobre tudo, e não só sobre o que cai na prova. Se quiser potencializar isso, passe minutos e até horas preciosas do seu dia (subtraídas do estudo, claro!) distribuindo comentários e entrando em polêmicas de grupos em mídias sociais. O bom da polêmica é seu poder de distração. É excelente para  drenar energia e desviar-nos do foco principal! Melhor ainda quando nada acrescentam às suas perspectivas sobre os assuntos que realmente constam da prova. Ainda para piorar intencionalmente seu desempenho na prova, evite acompanhar posições oficiais por fontes primárias: prefira informa-se e apurar sua capacidade analítica por meio da leitura de excertos de falas retiradas de contexto, tão caros aos veículos de direita e esquerda. Seja como eles e seja parcial: veja apenas um lado da moeda! Sendo assim, o terceiro-secretário que tomará posse este ano despreza opiniões enviesadas, ignora política interna e somente estuda o que é cobrado no concurso. Não siga esse exemplo!

Participe ativamente dos principais fóruns de Facebook e conheça os principais studygrams do Instagram

Quase todos sentimos a necessidade de compartilhar conhecimento. Uns mais que outros. Graças a isso, há muitas páginas de estudo no Instagram e Facebook que cumprem uma função importantíssima: popularizam listas de fontes bibliográficas recomendadas, métodos de organização, ensinam técnicas de estudo e comentam livros que estudaram. Outro papel relevante é a avaliação que fazem dos serviços de preparação para o CACD oferecidos pelo mercado. Essas pessoas dedicam tempo (roubado de seus próprios estudos) para o benefício de outras pessoas, mas em prejuízo próprio. É uma atividade nobre, de muito altruísmo. Como profissional da área de ensino, nutro profunda admiração por quem se dispõe a manter um blog de estudos. Devo parte de minha aprovação à comunidade de Orkut na qual costumava trocar dicas de prova e recomendações de livros com então futuros colegas. Ressalva feita, quem quer genuinamente passar conhece os principais studygrams, porém não mora neles. Candidatos fadados ao fracasso passam grande parte do dia pulando de perfil em perfil, em busca do novo furo que não fará a menor diferença ou de uma nova recomendação bibliográfica de um livro que jamais lerão. Nunca estão satisfeitos com o projeto que têm em mãos, pois a grama do vizinho é sempre mais verdinha. Para falhar com maestria, esqueça que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

Compartilhe, indiscriminadamente e sem esperar nada em troca, seus melhores resumos, PDFs e materiais de estudo

Uma estratégia infalível para ajudar a concorrência é compartilhar altruisticamente seu melhor resumo de Casa Grande & Senzala ou de Os Donos do Poder, de preferência em fórum digital a que muitas pessoas tenham acesso. Dessa forma, ao doar, sem receber nada em troca, um resumo de um livro que passou trinta horas estudando e mais dez resumindo, você poupa ao menos 35 horas de estudo de cada concorrente seu que tiver acesso a ele. Torça para que façam bom proveito desse tempo que ganharam e o apliquem na leitura de outras obras que você jamais lerá, porque está ocupado fazendo resumos para os outros. Assim, você fica sempre atrás deles. Ser altruísta, principalmente numa guerra, a favor do inimigo, é receita certa para a derrota. A troca de materiais é válida, sempre que se obtém dela um benefício maior ou igual ao agraciado. Mentalize o filme Jogos Vorazes. No jogo, os competidores que obtêm os melhores armamentos e os que detêm as estratégias defensivas mais sofisticadas é que são os finalistas. Perde o jogo quem entrega aos inimigos suas armas mais destrutivas. Entendo que nos sentimos bem ao compartilhar. Ninguém doaria aos menos necessitados se o ato causasse uma depressão profunda no doador. Não é à toa que o altruísmo pode ser visto como uma manifestação sofisticada do egoísmo.

Palavras finais

Creio ter cumprido a missão de escrever o melhor guia de reprovação no CACD disponível, talvez por ser o único. Pelo menos nunca tomei conhecimento de um escrito por outro colega diplomata. Apesar de longo, ele não esgota as receitas para o fracasso, que está sempre ali, à espreita, aguardando para dar uma rasteira em seus sonhos no seu primeiro vacilo. Este texto é tão carregado de sinceridade quanto de ironia. Essa última acaba aqui. Peço que não se ofenda com meu tom provocativo e jocoso.

Este artigo apenas reproduz minha visão particular (e do contra) do assunto, moldada em minha experiência pessoal, estudos e aplicação prática dos conceitos que defendo. Não pretendo, nem de longe, impor pontos de vista, pregar verdades universais ou ditar caminhos únicos para o sucesso, pois não existem.

Apresento apenas o que são, para mim, atalhos. Espero que discorde de vários pontos suscitados aqui (se os interpretou às avessas, claro!). Se o fizer, significa que refletiu sobre eles e chegou a suas próprias conclusões, que gostaria de conhecer e debater com você. Sou bastante acessível pelo Instagram e sempre respondo quem me escreve.

Quis ainda mostrar minha indignação com os métodos de estudo propagados pelo mainstream da preparação para o CACD. A culpa é, de certa forma, nossa, diplomatas, que, quando aprovados, nos colocamos alheios ao concurso, encastelados no Palácio dos Arcos, abandonando os que jazem caídos no campo de batalha. Infelizmente, nem todos os diplomatas têm o dom da docência, ainda que tenham muito a transmitir não só em termos de experiência profissional e específica sobre os temas da carreira, mas também a respeito das sutilezas do próprio concurso de admissão ao Itamaraty e das vicissitudes da preparação, pelas quais todos passaram. Como disse, é temerário contratar alguém que lucra dando conselhos sem arriscar nada próprio. Mais perigoso quando essas pessoas não são especialistas no concurso e na carreira, seja porque nunca passaram, seja porque estão apenas ocupando um vazio deixado pelos diplomatas.

Sem desmerecer os professores das mais variadas matérias (e há tantos geniais que não caberia os listar em uma página apenas), poucos são generalistas o suficiente para saírem de sua área de especialização com a destreza suficiente para orientar um projeto completo e ao mesmo tempo personalizado de aprovação em todos os seus aspectos: planejamento, distribuição de tempo, seleção bibliográfica, organização, definição de métodos de aprendizagem, aplicação de técnicas de estudos, uso estratégico de simulados, equilíbrio do conhecimento entre as disciplinas, priorização de temas de estudo por meio de análises estatísticas, etc.

Se já é difícil para quem passou na prova guiar a preparação de um outro futuro colega, imagine para quem não passou! Não por acaso os melhores treinadores são ex-atletas.

Nos últimos meses, tomei conhecimento, por meio de dezenas de candidatos, do sentimento quase generalizado de que faltam opções acessíveis para o caecedista que deseja se preparar de forma independente e completa. Queixam-se que os cursos extensivos custam uma pequena fortuna e que os programas de coaching/mentoria são impagáveis (sendo caro o custo da hora dos diplomatas, outros tipos de conselheiros ou trombeteiros se apresentam como solução). O principal receio que têm é que ficarão para trás da concorrência caso não comprem aquele produto da moda.

Para concluir, gostaria de deixar uma mensagem central: para ter sucesso no CACD, afaste-se da mediocridade, do nivelamento por baixo, incremente sua capacidade cognitiva, acostume-se a estudar prioritariamente sozinho, sem muletas, conduza seus estudos com diligência e desenvolva a habilidade de expressar-se de forma analítica, interessante e persuasiva por meio do texto. Há toda uma rigorosa banca examinadora a seduzir. Essas quatro ou cinco linhas não dão conta de descrever, contudo, o tamanho do esforço de preparação, que pode levar anos, já que a média de tempo de estudo para a aprovação no concurso é de pouco mais de quatro anos. Quem tenta transmitir a ideia (por meio da venda de serviços) de que é fácil ou comum passar com poucos meses de estudo está servindo-lhe veneno em taça de ouro.

Por último, enfrentar o CACD requer do candidato o que um brilhante autor chama de antifragilidade, que é a capacidade de resistir e de ficar mais forte diante do imprevisível e das adversidades com que nos deparamos ao longo da vida. É transformar o choro que acompanha uma reprovação no sorriso que inaugura, já no dia seguinte, uma nova temporada enriquecedora de estudos. Não jogue fora quatro anos de sua vida numa rotina e numa vida que você não quer ter: deixe-se guiar pelo que o estimula, não pelo que você repele. Programe-se para ser feliz apesar das obrigações, da incerteza e da muitas vezes excessiva cobrança auto-imposta e curta todo o processo de aquisição de conhecimento que vai mudar sua vida, independentemente da aprovação.

Marcílio Falcão (@falcao.marcilio) é diplomata de carreira há quase 12 anos e orientador para o CACD. Jornalista de formação, iniciou-se na docência há 23 anos e se dedicou, de forma intermitente, desde sua aprovação no CACD, à preparação de outros candidatos ao concurso.

Aperfeiçoou-se em planejamento, organização, métodos e técnicas de estudos voltadas para concursos públicos, conhecimento com o qual concebeu, para empresa de destaque no mercado, um programa de coaching e de planejamento de estudos utilizado por centenas de candidatos a diversas carreiras públicas. É fascinado por esculturas, violão, churrasco, powerlifting, xadrez e finanças.

É primeiro-secretário da carreira. Foi subchefe de Pessoal do Ministério das Relações Exteriores, cônsul-adjunto em Barcelona, chefe do setor de Política Externa, Cooperação Técnica, Temas Sociais e Ciência & Tecnologia da embaixada do Brasil no Paraguai. Atualmente está lotado em Angola.